A maravilhosa aventura de fazer amigos

Postado por Nivaldo Lemos



















Bem-vindo ao Tempo Marambaia, um blog que fala das memórias de um grupo de pessoas, a maioria de origem humilde, que nos anos 60 - em plena ditadura militar - participou de uma experiência inédita e inovadora na área da educação pública no Brasil. Numa remota ilha do litoral fluminense, a Ilha da Marambaia, em uma antiga escola de pesca herdada do governo Vargas - a Escola Técnica Darcy Vargas -, à época renomeada de Escola Estadual Darcy Vargas e, logo depois, Colégio Estadual Darcy Vargas, cerca de 600 jovens cursaram o ginasial técnico em regime de internato e horário integral, totalmente financiado pelo governo estadual: livros, roupas, alimentação e alojamento.



Éramos jovens rebeldes, amávamos os Beatles e os Rolling Stones, a Jovem Guarda e, como todos os jovens à época, transbordávamos hormônios, paixões, espinhas e sonhos. A diferença entre nós, internos, e os jovens do continente era, mais que a geografia, o próprio cotidiano e suas lutas. Enquanto eles enfrentavam a repressão nas praças e ruas do país, insurgindo-se contra a ditadura que tomara o país, nós vivíamos naquela ilha do Atlântico, submetidos a uma disciplina espartana, é verdade, mas desfrutando de um cotidiano bem mais prosaico e menos heróico. Nossas maiores batalhas se resumiam a driblar o isolamento, a saudade da família, o rigor dos horários e os inspetores e monitores da escola - os quais nos infligiam castigos incomparavelmente mais amenos que os aplicados pelos militares aos nossos heróicos rebeldes do continente. De comum, tínhamos os mesmos desejos de liberdade. E de libertinagem. Estes despertados pela explosão de hormônios que sequer podíamos acalmar: as poucas alunas, moradoras da ilha, estudavam em regime de externato e éramos terminantemente proibidos de namorá-las - o que não impedia que muitos alimentassem por elas amores platônicos.


Paradoxalmente, essa convivência, a olhos desatentos, sujeita a conflitos e tensões - mediada pelo amor e a dedicação de professores e funcionários e pela severa disciplina -, acabou moldando cidadãos livres, responsáveis e unidos por laços de amizade tão fortes que, mesmo esmaecidos pelo tempo, acabaram ressurgindo quase meio século depois ainda mais fortes e perenes.


Este blog é, pois, o registro vivenciado daquela experiência e uma singela homenagem àquela instituição de ensino público, já extinta e tão pouco conhecida. Outrossim, é uma declaração pública - ainda que tardia - da nossa infinita gratidão e reconhecimento aos professores e funcionários que nos conduziram são e salvos ao longo daquela fantástica experiência educacional e existencial: Adaury Alheiros da Silva (diretor e professor de geografia), Manoel Bastos (diretor administrativo), Jáder Bruno (álgebra), Ademir Eléster Sereno (inglês), Otacílio Araújo (aritmética), Abdias D'Ávila, Jackson Oliveira e Lílian de Souza (todos de português), Marly Nadege (Literatura), Argemiro (Artes Gráficas), Sérgio Villar (educação física), Leonel Mareto (marcenaria), Arynelson (artes industriais), Odilon Zorzi, o "Baita Pau" (biologia), Professores Cruz e Francisco Eugênio (desenho), Cyro da Silva (História Geral), Maestro Antônio Camargo (música), Nilton Oliveira (marinharia?), Orlando Santos (química?), Regina Fenandes (canto?), os inspetores Seu Herivaldo, Seu Marino, Seu Raimundo, Seu Pedro, Manuel Mariano ("Manuel Coréia"), o Mestre Cozinheiro, Seu Mathias da lavanderia, o Padre Geraldo, as Irmãs Luíza e Maria (da enfermaria), Mestre Clóvis (e os outros mestres dos barcos "Condecar", "Amaral", "Tintureiro", "Carneiro de Mendonça" - o "Carneirinho") - e "Romero Estelita" - que chamávamos de "iate"), o Mestre Padeiro (que não lembro o nome), Dona Soraya (que não trabalhava na escola, mas mantinha numa antiga senzala da ilha um armazém de secos e molhados que nos atraía como moscas para fora do perímetro com suas guloseimas) e a todos os outros que a memória já gasta pelo tempo me subtraiu os nomes, mas que, mesmo assim, integram essa lista de grandes amigos que transformaram nosso aprendizado numa aventura emocionante, maravilhosa e inesquecível. Uma aventura tão marcante que mudou a vida e o destino de cada um de nós para sempre, como poderão constatar os que se dispuserem a embarcar nesta viagem no tempo para conhecer um pouco da nossa história.


Os textos Dores e alegrias de uma escola à beira-marAs aventuras de dois coroinhas no colégio interno e Reencontro emociona velhos amigos 43 anos depois, este sob o título Reminiscências reúnem amigos após 43 anos, escritos por Nivaldo Lemos (o Piauí), foram postados inicialmente no site Overmundo, dentro do Projeto Reminiscências de Escola, idealizado e coordenado por Joca Oeiras.

Tintureiro

Postado por Nivaldo Lemos




















Texto de Pedro C. Fernandez


Era um meio-dia de sol em Mangaratiba, naquele mês de março de 1966. Estava no cais e vi chegar o “Tintureiro”. Aquela cena sempre despertava em mim a vontade de estudar na Marambaia.

O barco atracou na ponte, nele havia a bandeira do Brasil na popa. Era fabricado em madeira, todo pintado na cor verde, sendo algumas partes mais escuras e outras mais claras. Seu comprimento era de 10 metros, tendo três metros e meio de largura. O porão no convés da proa, fechado com uma escotilha de madeira, era usado para armazenar o gelo e o peixe. No centro da embarcação, estava o motor, dentro de uma pequena casa de máquinas. O timão do leme era de cana-da-índia. Havia também dois pequenos mastros, que um dia içaram, com auxílio de polainas, as redes cheias de corvinas.

Era uma traineira pequena com nome de tubarão grande.

Corri pro Hotel Rio Branco:

- Tia, chegou o barco do colégio. Quero ir pra lá estudar.

- Primeiro tenho que falar com sua mãe. Se ela deixar ir...

Minha tia ligou para o Rio de Janeiro e, depois de uma longa conversação, teve o tão desejado consentimento. Já havia arrumado o enxoval e só faltava fazer a mala. A tia foi buscar uma que era do meu pai, de nylon americano, na cor azul-marinho, e assim pude colocar tudo dentro dela. Já tinha também o uniforme do colégio preparado, porque, na realidade, a viagem já deveria ter sido realizada na semana anterior, mas, por motivos familiares, fora postergada.

Até parece que eu ficava sempre ali no cais somente esperando a chegada do Tintureiro para me levar. O barco partia sempre às duas da tarde. Eu já estava pronto, arrumado, almoçado e com a mala feita. Saí com minha tia e o Manduca, que me levava a bagagem até a ponte. No caminho, fomos surpreendidos com a notícia de que o barco não iria partir como programado.


- Por que não sairá?

- O Chaim confiscou a embarcação para ir a Ibicuí para reprimir contrabando. O delegado era conhecido por ser um repressor rigoroso. Não deixava as mulheres irem de biquíni à praia e não permitia que os homens andassem sem camisa nas ruas de Mangaratiba.

- E, agora, o barco vai sair a que horas?

- Ninguém sabe, depende do Chaim.

Voltamos para o hotel dos meus tios, onde eu estava morando. Fiquei torcendo para que a embarcação regressasse para eu poder finalmente partir para a escola. A cada instante corria até a ponte para ver se o Tintureiro havia voltado.

Um barco na tempestade.

Minha impaciência era grande e a do clima também. Aos poucos, o tempo foi mudando e a tarde foi ficando da cor de chumbo...

Eu sonhava estar no colégio, uma ex-escola de pescadores, que para mim era como entrar num colégio militar. A tarde foi chegando até que o Tintureiro foi aparecendo no horizonte da Baía de Mangaratiba. O delegado Chaim desceu do barco com um carregamento de cigarros contrabandeado. Desceram pela ponte e levaram tudo para a delegacia. Já era quase cinco da tarde, o tempo estava nublado e o vento soprava de mar afora. Havia pouco tempo de luz, e era necessário zarpar de imediato.

Agora, sim, o Manduca deixou minha mala no barco e minha tia ficou chorando na minha despedida. Subiram alguns nativos, e o Tintureiro soltou os cabos, iniciando nossa travessia de Mangaratiba para a Marambaia. Quando começamos a sair da baía, a traineira começou a balançar muito, e o mar ficou mais bravio. As ondas que batiam na proa faziam espuma que respingava nos nossos rostos. O funcionário da ilha, que era também dono do barco, tinha meio corpo dentro da sala de máquinas, de onde dirigia a embarcação, escorando a direção a sudoeste. Fomos muito castigados entre as ilhas de Guaíba e Guaibinha.

A minha mala estava na coberta, já deitada, balançava de bombordo para estibordo. Dava medo estar ali, pois nunca havia estado em alto-mar, principalmente em uma embarcação pequena e de noite. O vento era cada vez mais forte, e os passageiros tinham que se segurar por causa do temporal. Minha preocupação principal era que minha bagagem caísse na água. Se isso viesse a acontecer, ficaria perdida, pois a noite encobriu tudo, e já estávamos muito afastados da costa.

O barco era pequenininho e, com passageiros, ficava tão pesado que o motor passava da primeira para a segunda marcha, fazendo força para atravessar as ondas do mar. O dono do barco guiava com uma mão o leme e com a perna dirigia o motor. Num dado momento, com muito esforço, tratei de trazer a mala para a sala que estava por baixo da coberta, mas o dono não autorizou que ela entrasse.

O barco balançava, mesmo assim subi na parte de cima da cabine que cobria o motor, tratando de me agarrar à chaminé, coberta de corda e amianto, uma medida de segurança para ninguém se queimar. Mesmo com a proteção, ainda assim queimava, não podendo me equilibrar pelo movimento violento do mar. 


Estava atordoado com o mar revolto. A força da água era tanta que salpicava e inundava o fundo do barco. 
Minha preocupação era sair logo daquele temporal e chegar à ilha. A chuva e o vento não paravam, as ondas subiam bem alto. A proa do Tintureiro batia forte no mar e seu balanço era tão grande que parecia um sino a repicar com força. A completa escuridão, entre a Ilha da Marambaia e a Ilha Grande, fez com que eu me esquecesse da mala. Não via luzes, e a ilha estava tão longe que eu não enxergava.


Noite, chuva, vento, água e as ondas seguiam entrando no barco. A oscilação era maior que 75 graus, e as ondas eram de cinco metros. A situação ficou tão preta, no real sentido da palavra, que o dono queria que eu descesse para perto do motor. Tive que acatar a ordem e desci. Ali dentro fazia um ruído e calor infernais. Lá fora o temporal castigava, e a situação estava muito difícil.

Se alguém caísse na água, já era... A permanência ali era complicada em qualquer lugar. Dentro fazia um ruído e calor infernais; lá fora o temporal não dava trégua. Depois de algum tempo, voltei pra coberta na busca da minha mala. Minha preocupação era sair do temporal, e o meu medo era grande. Sabia que, se o barco virasse, todos morreriam afogados ou virariam jantar de tubarão.

Todo molhado pelo mar e pela chuva, cheguei a pensar que não íamos chegar e que o Tintureiro se perderia na imensidão do mar e da noite. Senti que era o meu fim e assim comecei a rezar vários pais-nossos e ave-marias, e a garrafa de cachaça rolava de mão em mão entre os passageiros para dar calor e coragem. Não me lembro se chorei, mas é provável...

Pouco iluminado no meio do oceano, o nosso barco buscava a costa da Marambaia pra se salvar. No horizonte escuro, quando a proa subia sobre as ondas, começou-se a enxergar, lá longe, na costa da ilha, as primeiras luzes que surgiam de cor amarela e, espargidas entre elas, viam-se as casas dos moradores e as luzes do colégio. Quando a proa descia e as ondas subiam, perdia-se de vista nosso destino. A estibordo, um passageiro, morador da ilha, movia com força a eclusa de ferro para cima e para baixo, no intuito de diminuir a água que já subia do porão e inundava cada vez mais a sala de máquinas.

Enfim, o cais do paraíso.

A escuridão imensa da noite se misturava com a do mar. O temporal começou a diminuir, e as ondas aos poucos ficaram menores. O vento começou a bater mais leve. Lá longe, começamos a enxergar as primeiras e poucas luzes da ponte que nos guiavam no meio da noite avançada e chuvosa. Minha mala perdida tinha caído na água que inundava o barco. Fiquei preocupado, mas estava aliviado de estar chegando seguro em terra.


O movimento era grande. Tiraram pneus do porão para escorar o encontro da embarcação contra a ponte. Logo que passamos pelo Zumbi, fomos chegando bem devagar. De pronto, saltou do barco um marinheiro que amarrou o cabo de proa no mourão do cais. Nos foi jogado o cabo da popa que, com o auxílio da proteção dos pneus, pudemos amarrar com dificuldade à outra ponta, pois o mar ainda seguia agitado.

Graças a Deus, finalmente, chegamos. Quando desci na ponte, sentia o vaivém do Tintureiro no meu corpo. Parecia que ainda estava a bordo. A maré alta batia perto do guindaste e, no meio da noite, segui em direção à área de embarque e desembarque de cargas, perto da Cibrazem, empresa que fabricava o gelo para os barcos de pesca. Ao contornar a praia, vi que a plantação de coqueiros, que servia de anteparo do ambiente escolar, mexia de um lado para outro, movida pelos fortes ventos.


Sigo em direção das luzes, onde vejo solene, silenciosa, noturna e serena a Escola Darcy Vargas, hoje, base dos fuzileiros navais, que a partir dali passou a ser meu lar e escola por quatro anos.

Tinha onze anos e dormi com medo, pensando que aquela noite não terminaria jamais.

 Buenos Aires, 11/11/11 .


Inventário da saudade: 45 anos de amizade

Postado por Nivaldo Lemos

O texto a seguir foi escrito por nosso amigo e "pingófilo" Pompílio Marinho (foto), após o último encontro de ex-alunos da Marambaia, realizado na casa do Prof. Adaury, em Sepetiba, e resume com precisão e emoção o que essa amizade, construída há mais de 40 anos, ainda representa para cada um de nós. Tomei a liberdade de mudar o título, por acreditar que este expressa melhor o espírito do texto. Espero que ele concorde.
“Sucesso absoluto! Vitória inconteste a realização desse primeiro almoço dos ex-alunos...”
Assim comecei em 1969 a carta aberta que tentaria colocar na imprensa como press-release e que pretendia fosse um acontecimento que despertasse interesse jornalístico e, consequentemente, divulgasse aquela iniciativa que julgávamos ímpar. Não era. Não era ímpar nem despertou interesse jornalístico. Naquela época, o que mais tinha era encontro de ex... Ex-alunos disso, ex-alunos daquilo, ex-estudantes, ex-políticos, ex-padres, ex-quase tudo! Naquele ano, com o homem pisando na lua, com movimentos políticos e atos institucionais sendo baixados a toda hora, com igrejas, cortiços e porões sendo usados como bunkers, os “ex” organizavam-se em pequenos grupos que se reagrupavam e daí por diante só o que interessava era o “movimento”.
Encontramo-nos, quase que por acaso, no Centro do Rio e ali começamos nosso esforço para manter vivo aquele espírito de corpo que pouco antes tínhamos na Marambaia. Catando-nos uns aos outros, com parcas informações e menos recursos, conseguimos finalmente realizar o que chamamos de “primeiro almoço de ex-alunos da Marambaia”.
Foi numa pensão de sobrado ali próximo ao Mercado das Flores. Uma terrina de sopa parecida com aquelas da dona Virgínia, outra de feijão e aquela travessona de alumínio, abarrotada de arroz... Só faltava a rapa de arroz conseguida com um pouco de “peixada” ou algum suborno. O Zarnof, que trabalhava na Brastel – esquina de Buenos Aires com Uruguaiana – foi quem organizou tudo junto ao português da pensão.
Um incrível exército de Brancaleone - Comparecemos pouco mais de meia dúzia, se tanto. Lembro-me bem da presença de Gaúcho, Janir (Baeh), Sérgio Dames, Arraia, Chipa – que chegou atrasado, como sempre –, eu e... Quem mais? Tinha um outro cara que trabalhava na Marinha, ali na 1° de Março. Talvez fosse o Massinha, não sei...
Era uma mesa de 12 lugares com mais um na cabeceira que o Zarnof e o Gaúcho disputaram por todo o tempo. O Arraia, que trabalhava na Piril (gráfica), queria de todo jeito imprimir uns convites já pro próximo encontro... E mandaríamos pra quem? Com que recursos (endereços, dinheiro pro correio)? Votamos então a impressão de uns cartões de participação com votos de boas festas. O Sérgio Dames ficou encarregado de criar o layout. Dames trabalhava na Visconde de Inhaúma e eu, na Ouvidor. Depois desse almoço jamais nos encontramos de novo. Pelo menos não todos os presentes ali nem em número tão significativo.
Baeh foi pra Escola Técnica Nacional, Gaúcho foi pro PQD (Corpo de Paraquedistas), Dames sumiu, Arraia virou gerente (anos depois) e, assim, nossos encontros passaram a ser esporádicos. Mais frequente só eu, Chipa, Gaúcho, Zarnof... Mas sempre em dupla ou trinca, nunca mais...
Agora, 40 anos depois, sem aqueles parceiros do primeiro encontro, junto-me a esse grupo para mais um almoço de ex-alunos. É muita emoção! Trocam-se os parceiros, mudam-se as ferramentas de contato – que hoje praticamente é só internet –, mas continua igual. Igual há 40 anos ou há um ano atrás, quando fui pela primeira vez ao Encontro de Itaboraí.
Amigos são tesouros - Obrigado! Obrigado, Piauí, por ter publicado no Overmundo o que proporcionou esse nosso reencontro. Obrigado, Schunck, por seu esforço na organização desses encontros. Obrigado, Prof. Adaury, pela acolhida em sua casa desses seus velhos alunos neste ano de 2009 e por ter participado em 2008 do reencontro em Itaboraí. Obrigado aos que estiveram presentes:
P. P. Portes, Ademir, David, Schunck, Nivaldo (Piauí), Ivone, Nilce, C. Alberto (Negão), Ana, Cyrilo, Paulo Jorge, Jonas, Dulcinéia – esposa do nosso saudoso professor Sergio Vilar Gómez. Com exceção de Ademir, Ana, Davi, Ivone, Jonas, Paulo Jorge e Dulcinéia, que não estiveram lá, acrescentem-se para Itaboraí as presenças de Hélio Dias (Parafuso), Jorge da Silva (Calango), Cida Borges, Roberto Barros, Eduardo (Gagary), Francisco de Assis (d’Big).
Não esqueçamos também dos familiares que acompanharam todos e dos que, não tendo acompanhado, de alguma forma contribuíram para o brilhantismo desses encontros.
Amigos, irmãos, muito mais do que agradecer, quero louvar a felicidade dessas nossas vidas! Separadas de corpos, mas sempre unidas pelos laços que lá atrás se formaram e que não há tempo nem distância que os desfaçam. Encerrando, peço licença à Bia, filha do PP, para reproduzir uma parte do seu texto que nos foi enviado logo após o encontro na casa do Prof. Adaury, que tem grande participação na formação desse pensamento:
"Nesse encontro pude notar muita alegria, emoção, felicidade presentes nos olhos de cada um de vocês. E foi muito gratificante pra mim saber que a amizade, quando cultivada, faz brotar somente esses sentimentos tão positivos.
Certa vez, um escritor muito sábio disse: 'Quem achou um amigo, achou um tesouro.' Todos vocês são uma jóia rara na vida uns dos outros; então, continuem assim cultivando essa amizade tão bonita e duradoura.. Vocês representam com nobreza a palavra AMIZADE!”

Uma amizade sem fronteiras

Postado por Nivaldo Lemos

Texto escrito por Jorge da Silva (foto), o Jorge Calango – hoje empresário nos EUA -, sobre o que representou para ele a experiência no Colégio Estadual Darcy Vargas, na Ilha da Marambaia. E, especialmente, o que significaram as amizades ali construídas e mantidas até hoje, quase meio século depois.

A experiência vivida por nós, ex-alunos da Marambaia, foi muito interessante, a começar pela forma com que nos conhecemos e que ficou gravada para sempre em cada um de nós. Tanto que, após minha saída da Escola, nunca perdi o contato com alguns amigos, como o Cyrilo e o Océlio – este, inclusive, durante o tempo de serviço militar viveu conosco como verdadeiro irmão em nossa casa, o mesmo acontecendo depois com o Cyrilão, que também acolhemos como um filho mais novo. Aliás, minha mãe sempre considerou nossos amigos da Marambaia como filhos. Tanto que, um dia, eu já vivendo nos EUA, recebi a triste notícia do falecimento dela e – por não poder comparecer à cerimônia fúnebre por morar em outro país - fui representado pelo meu irmão, compadre e amigo Cyrilo. Tudo isso, até hoje, me enche de orgulho, pois demonstra que a afinidade entre nós com o tempo ultrapassou os limites de uma simples amizade e transformou-se – posso dizer, sem medo de errar – em relação de quase parentesco.

Essa amizade em hoje guardo também por cada um dos tantos outros amigos que fiz naqueles longínquos anos 60, como o querido Gagarin, Zé Carlos Cassia, Neguinho, Luiz Piranha, Océlio Orange (irmão do Océlio), Ozanete (irmã do Océlio) e outros. Todas essas pessoas marcaram nossas vidas e, mais tarde, a vida de nossos filhos e esposas, como o caso da Edna, esposa do Cyrilo, que hoje é minha comadre; a Ângela, esposa do Gagarin e grande amiga, assim como os filhos dele, O Dudu e o Ângelo, igualmente grandes amigos e garotos que valem ouro – a todos eles amo como meus verdadeiros parentes.

Primeiro encontro – A estes amigos, mais tarde juntaram-se o Arnaldo Schunk e o Carlinhos (Negão) e, juntos, sonhamos o primeiro encontro de ex-alunos na Cidade dos Meninos, localizada em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Para tanto, articulamos e reunimos os contatos que cada um tinha na época e realizamos o primeiro encontro de ex-alunos da Marambaia. O local foi a casa do ex-diretor administrativo da escola, Manuel Bastos, na Cidade dos Meninos. Estavam presentes Tião Rosa, Lauro, Hélio Fraga, Jorge Rodrigues, Cyrilão, Roberto Barros, Prof. Adaury (ex-diretor pedagógico da escola, que sempre esteve à frente de seus alunos e, diga-se de passagem, jamais faltou a nenhum dos encontros que se sucederam àquele), Nagibe - grande Nagibe! -, Luiz Fernando Ceoto (sobrinho do querido Prof. Leonel), Gagary, Walmir e outros amigos de Paraty que no momento me fogem à lembrança. Neste encontro ainda contamos com a presença da viúva do Serginho e do querido e Theodoro, filho de D. Anita, que morava na Ilha Grande e era irmão do falecido Kall Albert Knosell Chagas. No nosso segundo encontro, também ele já estaria ausente, vitimado – como o irmão Carlinhos – pela violência que não poupou sequer o paraíso em que moravama, a Ilha Grande. Ambos eram policiais. Encerramos este primeiro encontro bastante emocionados e unidos numa oração de agradecimento a Deus pela oportunidade que nos proporcionou de realizá-lo com sucesso.

Outros encontros – O segundo encontro foi realizado na casa do Prof. Leonel já sem a presença de alguns ex-alunos que faleceram, como já dissemos. Mas o terceiro foi o mais engraçado e melhor de todos, pois foi feito na casa do nosso querido Gagary, com a presença do PP, do Antoni, irmão do Chico Pimenta e de toda a galera. Imaginem um encontro na casa do Gagary, com toda aquela cachaça... Foi uma maravilha, fiquei em Paraty dois dias. E o meu amigo Pintinho levou dois dias de Paraty a Angra, cidades que ficam a poucos quilômetros uma da outra. O Ivan esteve presente neste e não me deixa mentir. Foi um senhor encontro. Depois disso, realizamos um passeio à Marambaia (somente para os Lords – como nos chamavam os alunos remanescentes da antiga escola de pesca, para nos diferenciar deles), que também foi muito bom, mas cujos detalhes me fogem à mente. Lembro que foram eu, o Schunk, o Carlinhos, o Hélio Dias, o Cyrilo... Caso haja esquecido alguém, queiram acrescentar. Finalmente, o penúltimo – antes do realizado na casa do Prof. Adaury, em Sepetiba – foi no sítio do irmão do Nivaldo, em Itaboraí, cujas fotos podem ser vistas aqui. Abraços a todos e não vamos deixar a peteca cair. Vamos marcar o próximo!

Dores e alegrias de uma escola à beira-mar

Postado por Nivaldo Lemos


Marx disse que há dias que valem por séculos na história dos povos, referindo-se à Comuna de Paris. O dia 21 de maio de 1965 – quando desembarcamos na Escola Técnica Darcy Vargas (1), eu e meu irmão Célio – foi um desses dias fundamentais na nossa história pessoal. Era uma sexta-feira e vínhamos de longa viagem de Kombi até Santa Cruz, de trem de madeira (o famoso “macaquinho”) até Mangaratiba e de barco até a Ilha da Marambaia, onde ficava o colégio interno, um percurso de mais de cinco horas.

Ao desembarcar na ilha, seguimos juntos para a escola arrastando malas e saudades. O cheiro do salitre, as casas simples à beira-mar e o marulhar das ondas lambendo a longa faixa de areia me deram uma enorme saudade de casa. A natureza da ilha era deslumbrante e um cenário perfeito para uma escola de sonhos: à frente do pátio onde hasteávamos a bandeira, um mar azul salpicado de embarcações; nos fundos, a frondosa mata atlântica. À esquerda da escola, um tapete avermelhado de pétalas desenhado pelos flamboyans e uma pequena ponte sobre um rio delimitavam a área de circulação externa, chamada de "perímetro". Depois da ponte, portanto fora do perímetro permitido, havia uma antiga senzala usada como quitanda por Dona Soraya e aonde muitas vezes acorríamos sorrateiros para comprar doces e picolés. À direita, erguiam-se um pequeno bosque de eucaliptos e o pico da Marambaia que chamávamos de Morro da Velha por causa da freqüente névoa que o encobria como um véu branco de beata e que, vindo do Atlântico, se agasalhava durante dias no colo da floresta, como se descansando da longa viagem.

Chegamos cheios de dúvidas e medo de não corresponder às expectativas. Eu sabia que estava ali mais por circunstância do destino (escola experimental, internato, numa ilha e poucos candidatos) que por mérito. Cursara precariamente o primário até prestar o Exame de Admissão que me levara até ali – só Deus e talvez meu pai sabiam como. De qualquer modo, ali estávamos – eu e meu irmão.

Uma noite de cão.

A primeira noite foi a mais difícil. O alojamento era um enorme pavilhão com fileiras de camas e um conjunto de banheiros no fim. Quando soou o toque de silêncio e as luzes se apagaram, rezei a ave-maria em silêncio e, extenuado, dormi. De madrugada acordei apavorado: havia urinado na cama e não sabia o que fazer. Sequei o chão com o próprio lençol e o substituí por um novo, antes que o dia amanhecesse e me descobrissem. Para meu desespero, aquilo se repetiu várias noites. A roupa de cama era trocada somente aos sábados. E quando ao fim da primeira semana levei à lavanderia a pequena montanha de lençóis, o chefe da lavanderia olhou nos meus olhos e viu o meu desespero. Foram os segundos mais longos de minha vida até ele me sorrir e pegar a roupa. Ninguém nunca soube o meu segredo. Em poucas semanas me adaptei à escola e o problema sumiu. Sobrevivi incólume, graças à generosa cumplicidade daquele homem de quem hoje sequer lembro o nome.

Castigos e desejos: pedagogia da submissão.

O colégio era civil, mas logo descobri que a disciplina era militar. Cada aluno recebia um número de identificação que era posto no armário, uniforme e roupas de cama. O controle incluía o uso de apito ou corneta para reunir os alunos em pelotões. Para tudo – comer, ir às aulas, à praia, dormir – soava um toque de corneta ou apito e de pronto ficávamos em posição de sentido, imóveis, até o segundo toque quando formávamos pelotões. Por vezes o monitor aguardava longos minutos até o segundo toque, observando se flagrava algum movimento. Quando isso acontecia, ele anotava o nome do “infrator” que à noite era posto de castigo em pé no pátio durante horas, imóvel e em silêncio, até a hora de dormir. Um castigo que recebi amiúde no primeiro ano. Era talvez uma forma de subjugar fisicamente aquele bando de adolescentes, autênticas máquinas de energia e vitalidade. Hoje, quando penso naquelas lições de totalitarismo, não posso evitar uma associação – mesmo que involuntária – com a ditadura militar que subjugava o país à época.

A vigilância era orwelliana: inspetores e monitores acompanhavam cada passo dos alunos no pátio, sala de aula, dormitório, igreja – até no banheiro havia sempre um par de olhos atentos. O mundo que nos chegava nas ondas do rádio refletia anseios libertários: Beatles, hippies, pílula, amor livre. Ainda não havia AIDS para intimidar a sexualidade, éramos mais de mil jovens – entre 12 e 20 anos – enclausurados numa ilha cuja única ligação com o mundo exterior – além do radinho de pilha e as visitas da família – era uma televisão PB (não havia TV em cores), onde assistíamos ao Telecatch, Programa Flavio Cavalcanti, Hebe Camargo e filmes e notícias que a ditadura permitia. A repressão à sexualidade e a eventuais transgressões incluía os sermões do Padre Geraldo na missa dominical, que, no mês de Maria, maio, passava a ser diária. Apesar disso, nos quatro anos em que lá estudei, um inspetor e dois alunos foram expulsos por homossexualismo. Num colégio interno só de rapazes, era natural que se formassem amizades, mas quando dois amigos andavam muito juntos, o mais novo era chamado de “garotão” (“Fulano é garotão de Beltrano”), numa insinuação maldosa de que eram mais que amigos, o que nem sempre era verdade.

Pontos de fuga: o padre e a pátria.

O Padre Geraldo era um alemão que esculpia raízes da praia e pintava quadros belíssimos, mas bebia muito vinho e o tema recorrente dos seus sermões era a possibilidade de algum aluno namorar uma moça da ilha – o que deveria ser evitado sob o risco da danação eterna. O Padre Geraldo também celebrava missas nas ilhas da região – Ilha Grande, Jaguanum, Águas Lindas – à época ainda inexploradas turisticamente. Para fugir da rígida disciplina do colégio, eu e Célio nos tornamos coroinhas e passamos a acompanhar o padre nas missas realizadas nas ilhas. Como eu sabia que ele era chegado a um vinho (certa vez de tão bêbado celebrou um casamento em cinco minutos, repetido sobriamente depois a pedido dos noivos), na hora da consagração colocava mais água do que vinho no cálice. O padre ficava irritadíssimo e chegava a se servir ele próprio, subvertendo os cânones cerimoniais. Depois, dava-me uma bronca e acabava achando graça. O resto do dia a gente passava à toa pelas praias desertas, retornando só à tardinha ao colégio.

A disciplina tornava-se mais forte ao se aproximar a semana da pátria. O desfile em Mangaratiba era outra oportunidade da sairmos da ilha. A preparação incluía marchas diárias, horas a fio sob o sol, com nosso uniforme principal (chapéu de marinheiro, gandola e calça de brim azul e sapatos pretos de plástico emborrachado que no calor exalavam um chulé insuportável). Todos cantavam hinos militares e ensaiavam coreografias (estrela, âncora e evoluções). A banda de música tocava o Cisne Branco e hinos marciais cujos nomes não me recordo, embora lembre de um cuja letra reproduzo no fim desta matéria para que vocês tenham uma idéia. Participávamos dos desfiles com um ingênuo e sincero patriotismo, muitas vezes regado a lágrimas. A Escola Estadual Darcy Vargas era quase hors-concours, tamanho o sucesso que fazia. Lembro que as pessoas subiam nas sacadas das casas e no coreto da pracinha para ver melhor nossas evoluções e aplaudiam pra valer. Houve um desfile em que deixei um radinho de pilha Mitsubishi que ganhara de minha mãe com um inspetor, para que ele cuidasse enquanto eu desfilava. Para minha tristeza, quando após o desfile o procurei para reaver meu rádio, ele me informou que havia sido roubado. Nunca mais vi meu Mitsubishi. E os desfiles nunca mais foram os mesmos.

Futebol, álgebra e poesia: pedagogia da imaginação.

Lecionar numa ilha distante para alunos em sua maioria carentes – à época o termo não existia; a condição, sim – exigia dos professores um compromisso vocacional hoje cada vez menos comum. Só uma visão sacerdotal explica porque jovens educadores submetiam-se semanalmente à rotina de uma desconfortável viagem num pequeno barco de pesca, o Tintureiro, que – quando em mar bravio – era obrigado a permanecer horas ao largo, até aportar. Verdadeiros heróis, embora somente alguns permaneçam na minha memória até hoje: Jackson (de Português), Otacílio (de Aritmética), Sérgio (de Educação Física), Ademir (de Inglês) e Jader (de Álgebra). Destes, lembro com especial carinho dos três últimos.

O professor Sérgio, pelas aulas de educação física na praia ou no campo de futebol, que eram lições de liberdade e alegria. No primeiro ano, ele bolou um torneio de futebol que mobilizou a escola e colaborou muito para a integração dos alunos. Eram quatro times: Estrela (camisa azul), Náutico (vermelha), Esperança (verde) e Amarelinho (amarela), este último formado só com os “perebas”, que tinham pouca ou nenhuma intimidade com a bola – do qual fazíamos parte eu e meu irmão – e que por isso haviam sobrado. A torcida – incluindo quatro ou cinco meninas da ilha que estudavam em regime de externato – comparecia todo sábado e domingo para aplaudir ou vaiar nossas jogadas. No fim, o campeão foi mesmo o Estrela; e o vice, o Esperança. Mas o Amarelinho surpreendeu e ganhou do Náutico, ficando em terceiro. O que foi uma vitória para um time de enjeitados, e uma prova de que, no futebol como na vida, união e vontade às vezes podem valer mais do que a técnica.

Do professor de Inglês, Ademir, lembro especialmente pelo seu jeito heterodoxo de dar suas aulas. Invariavelmente as encerrava com uma piada – ou um debate livre e bem-humorado sobre temas tabus, como sexo e droga. Eram cinco ou dez minutos de muita alegria. Não foram raras as vezes que professores de outras turmas reclamaram do barulho de nossas risadas ao fim das aulas de inglês. Interpretavam o jeito alegre e jovial do professor como liberal demais – e, à época, até poderia ser –, mas suas aulas eram das mais concorridas. Ao fim e ao cabo, todos foram aprovados em Inglês e ele ainda garantiu lugar de destaque na minha memória. E na de muitos colegas, tenho certeza.

De todos, porém, o professor Jader foi sem dúvida o que mais me marcou. Pois, se não mudou minha relação com a Álgebra, me despertou para uma das mais importantes formas de compreensão da vida: a poesia. Foi numa festa cívica realizada no teatro da escola na qual alunos e professores interpretaram, cantaram ou declamaram algo. Após várias apresentações insossas que arrancaram raros aplausos ou mesmo indiferença, ele subiu ao palco. O auditório não estava nem aí quando começou com sua voz grave e uma expressão acompanhando o timbre da voz:

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.


Fez-se um grande silêncio. O professor Jader desceu do palco e caminhou lentamente por entre os alunos hipnotizados com sua interpretação, entre os quais eu. E continuou por quase meia hora, enriquecendo o Navio Negreiro, de Castro Alves com todas as pausas e inflexões dramáticas que o poema merece. E encerrou, suado e ofegante:

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!


Foi uma apoteose: alunos, professores e funcionários aplaudiram por 10 minutos ou mais. Naquele breve instante de eternidade descobri aos prantos o que era a poesia. E virei poeta.

Dia de visita: alegria e frustração.

Ao longo do ano, nosso único contato com a família ocorria no último domingo de cada mês, o dia de visitas. A expectativa era grande e, tão logo o apito do barco soava no horizonte anunciando as visitas, muitos acorriam ao cais para receber pais, mães, irmãos, parentes e amigos. Além de matar a saudade, a visita significava também presentes: caixas de chocolate e biscoito, frutas, doces e até radinhos de pilha para acompanharmos o futebol e ouvirmos músicas da Jovem Guarda. Se na escola as regras comuns e o uniforme padronizavam e escamoteavam diferenças sociais, o dia de visitas dizia muito da condição social de cada um: o tipo de roupa, o jeito de falar e a quantidade e qualidade dos presentes eram indicadores da condição social. Assim eu percebi que o Cabeleira, o Ademir, o Calvelli e outros tantos eram mais favorecidos socialmente que eu, meu irmão, o Sarampo, o Tesourinha, o Assis...

Diferenças à parte, o dia de visitas era uma festa. Exceto, quando, por um motivo ou outro, os pais não podiam ir. Era horrível. Ficávamos no cais até o barco se afastar, como para nos certificar de que ninguém viera mesmo. E voltávamos quase humilhados pela felicidade dos que caminhavam ao nosso lado abraçados a pais e parentes. Um sentimento que aumentava ainda mais quando as famílias se reuniam em piqueniques improvisados sob as árvores ou no pátio e os preterido ficavam a sós, pelos cantos. A frustração diminuía ao fim do dia, quando as visitas se iam e alguns colegas dividiam conosco um pouco do que haviam recebido, numa afetuosa demonstração de amizade e solidariedade que nos ajudava a suportar o mês, até a próxima visita.

Uma pena que este paraíso onde colhi as dores e alegrias de ser o que sou foi retomado pela Marinha e hoje é objeto de disputa judicial entre militares e quilombolas remanescentes dos escravos do comendador Joaquim José de Souza Breves, maior importador de mão-de-obra africana do Brasil no século XIX, conforme noticiou o Jornal Nacional. Ao escrever essas reminiscências escolares, outras lembranças que eu imaginava sepultadas para sempre me assomaram à memória. Talvez um dia as escreva, talvez as enterre definitivamente nos desvãos da alma.

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Uma herança do Governo Vargas.

A Escola Técnica de Pesca Darcy Vargas foi erguida durante o Estado Novo como parte de um complexo industrial profissionalizante de pesca. A escola incluía fábricas de farinha de peixe, de gelo e de redes de pesca, além de um pequeno estaleiro para a construção e manutenção de barcos. Foram construídas ainda uma cooperativa, uma escola primária e residências com esgoto, água encanada e energia elétrica.

Em 1939, a escola passou a ser administrada pela Sociedade Civil do Abrigo do Cristo Redentor – instituição de assistência social que desde o início dos anos 30 atuava no país e em 1943 foi transformada em Fundação. O projeto foi ampliado com a construção da Igreja Nossa Senhora das Dores, com clausura para religiosas, hospital, farmácia, lavanderia, além de padaria e projetos de horticultura e pecuária para abastecimento dos operários, técnicos e alunos. Em meados dos 50, o projeto – que chegou a concentrar quase toda a produção de pesca da baía de Sepetiba – entrou em decadência e a escola passou a representar um ônus.

Em 1965, a Fundação Abrigo Cristo Redentor firmou convênio com a Secretaria Estadual de Educação e reativou a escola com o nome de Escola Técnica Darcy Vargas (sem referência à pesca). Foram contratados dois gestores: Adaury Alheiros (diretor da parte educacional) e Manoel Bastos (parte disciplinar e administrativa). O novo currículo escolar incluiu, além das disciplinas tradicionais, Artes Industriais: encadernação de livros, motores a explosão, artes gráficas, artesanato, marcenaria e noções de marinharia. Curiosamente, a escola funcionou somente no período que eu e meu irmão lá permanecemos: de 1965 a 1970. Em 1971, foi novamente entregue à Marinha, que até hoje mantém ali o Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (Cadim), sob o comando dos Fuzileiros Navais.

A população da Ilha da Marambaia (Mbara-mbai em tupi-guarani, que significa cerco do mar) até hoje é composta por pescadores e remanescentes de escravos da família Breves, uma das mais poderosas linhagens da aristocracia cafeeira e escravocrata do Rio de Janeiro no século XIX, que lutam para permanecer na ilha. Pelas contas da Marinha - que defende a utilização exclusiva da ilha como área militar - lá moram 379 pessoas, ou 106 famílias, em 87 casas. Mas o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação para a Ilha da Marambaia, feito pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), indica a existência de pelo menos 645 moradores na ilha e mais 401 residentes no continente, num total de 1.046 pessoas, ou 281 famílias cadastradas, que teriam direito à titulação e ao uso coletivo da terra. A questão se arrasta até hoje na Justiça.

Letra do hino cujo título não lembro:

Nós aqui nesta escola
Estamos cumprindo um dever
Que nossa mãe pátria reclama
Para sabermos sempre a ela defender.
Juremos briosos companheiros
Neste céu de puro anil
Com armas na mão defenderemos
A integridade do Brasil.
Temos mostrado nesta escola
Grande interesse em servir a nação
Mas é preciso que o mundo saiba
Que o Brasil está em nossos corações.
Marchemos para a frente
Trabalhemos pela glória
Que um soldado valente arrebata a vitória.
E no dia glorioso
Que o soldado não esqueça
Aprendiz ao seu chefe obedeça.
Fortemente unidos nessa vontade
Em uma página de luz e liberdade.
A história pátria nós escrevamos
De baionetas muralhas construamos!
Hip-hurra!

Aventuras de dois coroinhas no colégio interno

Postado por Nivaldo Lemos

Achei essa fotografia da minha turma uniformizada ao lado do Padre Geraldo numa velha caixa de sapatos, sob uma pilha de outras também já gastas pelo tempo. Liguei pro meu amigo Joca, coordenador do Projeto Reminiscências de Escola, do site Overmundo, na expectativa de ainda poder publicá-la em minhas Dores e alegrias de uma escola à beira-mar, mas era tarde. Lamentei, mas ele me sugeriu escrever um texto, inspirado na fotografia, sobre minha experiência religiosa no colégio interno, na Ilha da Marambaia. Foi o que fiz.

O filósofo romeno Mircea Eliade, no clássico O mito do eterno retorno, disse que “quanto mais religioso é o homem, mais real ele é”. Não sei porque, a frase me soa hoje adequada às lembranças que guardo do Padre Geraldo, a maioria delas menos afeita às coisas do espírito que à sua condição humana. Além do gosto excessivo por vinho, Padre Geraldo era também excelente artista. Pintor de mão cheia – lembrava Rubens nas cores e tons – e escultor, sua obra retratava quase sempre a natureza da ilha e temas religiosos. Morando sozinho em uma casa simples, ampla e confortável, o padre recorria ao trabalho voluntário de duas moradoras da ilha (mãe e filha) para ajudá-lo a organizar a vida doméstica, o que acabou alimentando boatos entre os alunos. Uns diziam que ele mantinha relações sexuais com mãe e filha. Outros, que era homossexual e alguns até insinuavam que ele seria um refugiado nazista. De certo mesmo, eu e meu irmão sabíamos apenas que era um ser humano – demasiadamente humano, diria Nietzsche –, bom amigo e nosso salvo-conduto não só para o céu, que à época acreditávamos merecer, como para as belas ilhas da região, onde o ajudávamos a celebrar missas.

A possibilidade de ser coroinha surgiu por acaso. A Igreja de Nossa Senhora das Dores, centro da vida religiosa na ilha, comunicava-se com o pátio interno da escola por uma porta que ficava sempre aberta, como se nos convidando a entrar. Evidentemente, poucos atendiam ao convite, a maioria preferia freqüentar a sala de jogos, a quadra de esportes ou apenas adormecer sob a fronde dos eucaliptos centenários que nos ofereciam sombra, perfume e um generoso colo de raízes onde curtíamos a sesta. Até que em setembro, mês da padroeira, descobrimos que todos os dias, após o jantar, teríamos que render graças compulsórias à Mater Dolorosa. Foi aí que – por destino ou graça da santa – resolvi ser coroinha, menos por vocação do que pela possibilidade de gozar o privilégio que a função concedia de viajar aos domingos para celebrar missa na região. Uma rara oportunidade de sair da ilha mesmo por algumas horas.

É claro que o exercício da função tinha um outro lado, aliás o principal: aprender a liturgia da missa, que incluía chegar à igreja antes de todos, nos paramentar e arrumar a mesa com os acessórios da missa. Na hora da cerimônia, entrávamos com o padre e nos ajoelhávamos em frente ao altar, nos persignando. Durante a missa ficávamos sentados em uma cadeira atentos aos gestos do padre. Ao começar a liturgia de consagração, pegávamos as pequenas jarras (galhetas) com água e vinho para servir ao padre. Neste momento, só de implicância, eu colocava no cálice mais água que vinho. O padre falava baixinho “mais vinho!, mais vinho” e se servia ele mesmo. Quando ele levantava a hóstia para a consagração, eu tocava uma sineta – era a hora da missa que eu mais gostava. Terminada a cerimônia, o Padre Geraldo nos servia biscoitos e suco.

Já no segundo mês como coroinhas, entramos na escala de viagens. Nossa primeira missa fora da escola foi na ilha de Jaguanum, perto de Itacuruçá. Saímos pelas 10 horas da manhã no Tintureiro e por volta das 11 horas chegamos. No trajeto, Padre Geraldo tomou bastante vinho. Na ilha não havia cais. O barco parou a alguns metros da praia e um pescador nos apanhou em uma pequena canoa. A igreja ficava do outro lado da ilha, onde se concentravam as poucas casas, e era tão pobre que o sino não tinha sequer badalo. Convocamos os fiéis batendo com um vergalhão na campânula oca. Após a missa, nos reunimos em um trapiche à beira-mar onde os moradores haviam organizado – como era praxe – um lauto almoço regado a suco, cerveja, cachaça e muito vinho de garrafão. Após o almoço, enquanto eu e meu irmão mergulhávamos de uma enorme pedra na água gelada, Padre Geraldo bebia vinho e conversava com os fiéis. De repente vimos uma correria. O padre havia ficado tão bêbado que borrara as calças, literalmente, sendo socorrido pelos pescadores que lhe deram um bom banho, uma calça limpa e uma rede para descansar. Ao fim do dia, com ele ainda meio zonzo, pegamos o barco de volta para a escola. Foi um domingo inesquecível.

Quando passei para o terceiro ano – entre os 13 e 14 anos – fui eleito líder das atividades socioculturais da escola (GT de Cultura) e resolvi abandonar a função de coroinha. A nova função, além de me parecer mais interessante, também oferecia privilégios como o de visitar a família a cada dois meses e manter a chave da biblioteca, onde passamos a nos refugiar da missa para rezar por cartilhas não tão virtuosas como o catecismo, mas sem dúvida mais atraentes. Todavia, antes de deixar de ser coroinha, participamos ainda de um último passeio que Padre Geraldo organizou: uma excursão ao Morro da Velha, o ponto mais alto da ilha, com 641 metros, onde havia uma cruz de madeira.

Saímos pela manhã num grupo de talvez 10 ou 12 alunos, acompanhados por monitores – o padre não foi por causa da idade. Subimos durante aproximadamente duas horas pela mata fechada e cheia de mosquitos. Enfrentávamos além do calor e dos mosquitos, o medo de uma lenda fantástica sobre um baú que teria sido escondido por um frade no alto do morro, à época dos escravos, e em cujo interior haveria – não se sabe porque – um caderno para assinaturas e uma caneta. Segundo a lenda, quem tentava chegar ao baú acabava se perdendo na mata. Coincidência ou não, após duas horas de caminhada morro acima, alguém gritou “olha a cobra!” – e foi uma correria só, cada um para um lado. Parte do grupo se perdeu na mata fechada e somente eu e mais quatro pessoas chegamos ao topo. Lá no alto, acabei saindo na porrada com um colega chamado Tesourinha, com quem tinha uma rixa antiga, mas fomos prontamente apartados pelos outros. Serenados os ânimos, entre mortos e feridos escapamos todos. Mas o passeio que deveria acabar ao meio-dia estendeu-se até o fim da tarde, quando o último aluno chegou à escola todo sujo e picado de mosquito. Terminei assim meu tempo de coroinha e – de quebra – ainda ajudei a reforçar a misteriosa lenda do baú.

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Adendo

Pesquisando no fim de semana sobre a Escola Técnica Darcy Vargas no Orkut, descobri a comunidade “Eu Estudei na Ilha de Marambaia”, organizada pelo meu ex-colega de ginásio Carlos Alberto. Além de foto dos desfiles de Sete Setembro em Mangaratiba, da escola, da turma em sala de aula e de algumas meninas – moradoras da ilha – que estudavam em regime de externato, o texto cita o nome de vários colegas e de professores que lecionaram na escola à época. Por considerar que acrescenta informações que me fugiram à memória e enriquecem minhas recordações escolares, reproduzo aqui o pequeno texto como adendo:

“Eu estudei na Escola Técnica Darcy Vargas, também Colégio Estadual Darcy Vargas, entre os anos de 1966 e 1969, que à época tinha como Diretor da Unidade de Ensino o Professor Adaury Alheiros da Silva e, como Diretor da Parte Administrativa, o Professor Manoel Bastos (Alojamentos, Alimentação, Diversão - futebol, sala de jogos -, Religião, Lavanderia, etc.). Foi um belo e feliz período de minha vida, que guardo com muito carinho, pois tive o privilégio de desfrutar de um lugar abençoado por Deus, de praias lindas, limpas e belas (Praia Grande, do Sino, do Saco, etc.). Assim como tive o privilégio de usufruir uma ótima formação educacional, ministrada pelos professores: Adaury (Geografia), Leonel Mareto (Artes Industriais), Cyro da Silva (História Geral), Jader Bruno (Álgebra), Otacílio Araújo (Aritmética), Lilia de Souza (Português), Odilon Zorzi Ciência), Ademir Elester (Inglês), Prof. Cruz (Desenho), Francisco Eugenio (Desenho), Maestro Antonio Camargo (Música) e mais Abdias D'Avila, Jackson Oliveira, Marly Nadege, Nilton Oliveira, Orlando Santos, Regina Fernandes, Sergio Vilar. Tive contato com muitas pessoas das quais ainda me recordo e sinto saudades, como as alunas moradoras da Ilha: Maria Aparecida Pires, Isa Fontes do Nascimento, Ivone, Maria Aparecida Borges, Maria das Graças, Teresa, Nilce e os internos Francisco Cosme F. Carvalho (Vovó), Ademir Lima de Carvalho, Paulo Mauricio (Tachinha), José Roberto Marinho, Arnaldo Schunk, Antonio Carlos Melo (Neguinho), Eduardo José de Melo (Gagarim), Janir (Bae), José Domício dos Santos (Cachimbau), Adair Silva Gonçalves, Cirilo, Pedro Paulo Pereira Portes, Hélio Dias Rodrigues, Gercino e Gilberto José do Nascimento, Wanderley Gomes de Almeida, Adão, Zarnof, Derly, Jorge Rodrigues da Silva (Calango), Lauro Correa, Hélio Fraga, João Vicente, Hidelbrando (Zé Carioca), etc. Foi em uma época mágica e que tenho muitas saudades.”