A maravilhosa aventura de fazer amigos

Postado por Nivaldo Lemos

Bem-vindo ao Tempo Marambaia, um blog que fala das memórias de um grupo de pessoas, a maioria de origem humilde, que nos anos 60 - em plena ditadura militar - participou de uma experiência inédita e inovadora na área da educação pública no Brasil. Numa remota ilha do litoral fluminense, a Ilha da Marambaia, em uma antiga escola de pesca herdada do governo Vargas - a Escola Técnica Darcy Vargas -, à época renomeada de Escola Estadual Darcy Vargas e, logo depois, Colégio Estadual Darcy Vargas, cerca de 600 jovens cursaram o ginasial técnico em regime de internato e horário integral, totalmente financiado pelo governo estadual: livros, roupas, alimentação e alojamento.

Éramos jovens rebeldes, amávamos os Beatles e os Rolling Stones, a Jovem Guarda e, como todos os jovens à época, transbordávamos hormônios, paixões, espinhas e sonhos. A diferença entre nós, internos, e os jovens do continente era, mais que a geografia, o próprio cotidiano e suas lutas. Enquanto eles enfrentavam a repressão nas praças e ruas do país, insurgindo-se contra a ditadura que tomara o país, nós vivíamos naquela ilha do Atlântico, submetidos a uma disciplina espartana, é verdade, mas desfrutando de um cotidiano bem mais prosaico e menos heróico. Nossas maiores batalhas se resumiam a driblar o isolamento, a saudade da família, o rigor dos horários e os inspetores e monitores da escola - os quais nos infligiam castigos incomparavelmente mais amenos que os aplicados pelos militares aos nossos heróicos rebeldes do continente. De comum, tínhamos os mesmos desejos de liberdade. E de libertinagem. Estes despertados pela explosão de hormônios que sequer podíamos acalmar: as poucas alunas, moradoras da ilha, estudavam em regime de externato e éramos terminantemente proibidos de namorá-las - o que não impedia que muitos alimentassem por elas amores platônicos.

Paradoxalmente, essa convivência, a olhos desatentos, sujeita a conflitos e tensões - mediada pelo amor e a dedicação de professores e funcionários e pela severa disciplina -, acabou moldando cidadãos livres, responsáveis e unidos por laços de amizade tão fortes que, mesmo esmaecidos pelo tempo, acabaram ressurgindo quase meio século depois ainda mais fortes e perenes.

Este blog é, pois, o registro vivenciado daquela experiência e uma singela homenagem àquela instituição de ensino público, já extinta e tão pouco conhecida. Outrossim, é uma declaração pública - ainda que tardia - da nossa infinita gratidão e reconhecimento aos professores e funcionários que nos conduziram são e salvos ao longo daquela fantástica experiência educacional e existencial: Adaury Alheiros da Silva (diretor e professor de geografia), Manoel Bastos (diretor administrativo), Jáder Bruno (álgebra), Ademir Eléster Sereno (inglês), Otacílio Araújo (aritmética), Abdias D'Ávila, Jackson Oliveira e Lílian de Souza (todos de português), Marly Nadege (Literatura), Argemiro (Artes Gráficas), Sérgio Villar (educação física), Leonel Mareto (marcenaria), Arynelson (artes industriais), Odilon Zorzi, o "Baita Pau" (biologia), Professores Cruz e Francisco Eugênio (desenho), Cyro da Silva (História Geral), Maestro Antônio Camargo (música), Nilton Oliveira (marinharia?), Orlando Santos (química?), Regina Fenandes (canto?), os inspetores Seu Herivaldo, Seu Marino, Seu Raimundo, Seu Pedro, Manuel Mariano ("Manuel Coréia"), o Mestre Cozinheiro, Seu Mathias da lavanderia, o Padre Geraldo, as Irmãs Luíza e Maria (da enfermaria), Mestre Clóvis (e os outros mestres dos barcos "Condecar", "Amaral", "Tintureiro", "Carneiro de Mendonça" - o "Carneirinho") - e "Romero Estelita" - que chamávamos de "iate"), o Mestre Padeiro (que não lembro o nome), Dona Soraya (que não trabalhava na escola, mas mantinha numa antiga senzala da ilha um armazém de secos e molhados que nos atraía como moscas para fora do perímetro com suas guloseimas) e a todos os outros que a memória já gasta pelo tempo me subtraiu os nomes, mas que, mesmo assim, integram essa lista de grandes amigos que transformaram nosso aprendizado numa aventura emocionante, maravilhosa e inesquecível. Uma aventura tão marcante que mudou a vida e o destino de cada um de nós para sempre, como poderão constatar os que se dispuserem a embarcar nesta viagem no tempo para conhecer um pouco da nossa história.

Os textos Dores e alegrias de uma escola à beira-marAs aventuras de dois coroinhas no colégio interno e Reencontro emociona velhos amigos 43 anos depois, este sob o título Reminiscências reúnem amigos após 43 anos, escritos por Nivaldo Lemos (o Piauí), foram postados inicialmente no site Overmundo, dentro do Projeto Reminiscências de Escola, idealizado e coordenado por Joca Oeiras.

Depoimento de Carlos Alberto Silva Teixeira

Postado por Nivaldo Lemos

Recebi hoje e-mail do ex-aluno da Marambaia Carlos Alberto Silva Teixeira, que se localiza na foto abaixo como sendo o quinto da esquerda para a direita (ou o primeiro deitado diante dos denais alunos). Como quem está deitado é o Flávio Fonseca, deduzo que ele seja o que está entre mim (Piauí/Nivaldo) e o José Carlos Cavalcanti. Confesso que não lembro dele. Reproduzo seu e-mail ipisis litteris, para que, junto com os outros depoimentos postados aqui no blog, possa compor a antropologia da memória do nosso Tempo Marambaia.




"Estudei nos anos de 1963 até 1965, na Escola Técnica Darcy Vargas, sob a direção do senhor Antonio Sampaio e dos inspetores que compunham o quadro de disciplinadores, os senhores Alberto, conhecido por “Mititi” e Marino, respectivamente. Posteriormente a Escola passou a ter um novo nome (Escola Estadual Darcy Vargas) sendo que todos os alunos da antiga Escola Técnica Darcy Vargas tiveram que deixar a escola em razão de haver uma negociação com o governo do estado do Rio de Janeiro/RJ, para ocupação do mesmo espaço para funcionamento da nova escola ( Escola Estadual Darcy Vargas e consequentemente os alunos eram advindos do Rio e de famílias com boas condições financeiras, diferentemente de nós alunos que ali estavam porque eram considerados filhos de pescadores, o que condicionava a permanência desses novos alunos na Escola Técnica Darcy Vargas.

Eu como remanescente da Escola Técnica Darcy Vargas fui reaproveitado nessa nova escola, talvez, assim creio por não ter parentes no Rio de Janeiro/RJ ou talvez pelo meu bom aproveitamento escolar durante o tempo da minha permanência na rede da fundação Abrigo Cristo Redentor.

Todavia, o convívio não era como os ocorridos na Escola Técnica Darcy Vargas, haja vista que eles tinham a preferência no que tange à disciplina, uma vez que qualquer queixa proveniente de um desses alunos, a credibilidade não era nossa e sim deles, porque eles pagavam e nós (dois ou três egressos da Escola Técnica Darcy Vargas) que ficaram por lá, ficavam à mercê dessa nova turma e assim no ano de 1966 me desliguei da Escola Estadual Darcy Vargas e fui para a Escola Típica Cidade dos Meninos, em Duque de Caxias/RJ.

ESCOLA TÍPICA CIDADE DOS MENINOS – ESTRADA RIO PETROPÓLIS – KM 12 – DUQUE DE CAXIAS/RJ.

Já em 1966 estando desta vez na Escola Típica Cidade dos Meninos situada na Estrada Rio-Petrópolis, no Km 12, houve um desfile escolar que também participei nas proximidades na FNM (Fábrica Nacional de Motores).

Ainda nessa mesma escola, eu aproveitei para “escamar”  (fugir) com um colega para ir ao Maracanã, com o fim de assistir ao jogo do Fluminense 1 x 1 Vasco no dia  19/09/1965 e quando do meu retorno fiquei de castigo durante dois dias, em um quarto escuro, que era preparado exclusivamente para ocasiões de disciplina. Não obstante esse resultado, valeu a pena ir ao Maracanã e poder assistir ao meu Fluminense e assim ficar registrada a minha presença nesse jogo. A distância percorrida da saída do colégio até a estrada Rio=Petropólis era imensa e sem contar com os pedidos de caronas para ir ao estádio do Maracanã e depois voltar para escola sem que fôssemos vistos. Naquele tempo os horários dos jogos eram das 17h nos jogos da tarde e 20h15min, nos jogos da noite, período em que daria para ir aos jogos e voltar cedo, mesmo na situação em que eu me encontrava, com pouco dinheiro para ir e voltar. Chegando ao colégio fui comunicado por um colega interno que todos já sabiam que eu teria fugido e que o castigo seria uma questão de horas e que veio no dia seguinte para o cumprimento e assim o fiz.

Havia também o controle no uso de rádio de pilhas e eu tinha um da Sharp com capa de couro legítimo (que tempo bom), que só poderiam usá-lo aos domingos e feriados, já que usando fora desses períodos, o rádio ficaria sob a condição de apreendido pela direção da escola, já que sendo detectado pelos monitores a retenção era imediata e sendo entregue ao aluno depois de um mês. Quando eu usava o fazia por debaixo do lençol e mesmo assim eu dormi e caiu no chão e o monitor recolheu e só tive de volta após um mês.

ESCOLA TÉCNICA DARCY VARGAS – ILHA DA MARAMBAIA/RJ.

Na Ilha da Marambaia, o quadro de funcionários existe a grande lembrança do senhor Mathias, que era o nosso chefe da Lavandaria, que tinha duas lindas filhas, uma de nome Maria Aparecida Borges Andrade, de quem eu nutria uma paixão e a outra filha não recordo o seu nome, contudo também tratava-se uma linda menina.

Recordando ainda sobre os nossos inspetores Senhor Alberto “Mititi” e Marino, o senhor Marino era mais chegado a ficar penteando o seu liso cabelo com penteados denominado “Topete”, ao passo que o senhor Alberto *Mititi” destoava do senhor Marino no que diz respeito à silhueta, bem como quando se manifestava para repreender um aluno, já que usava de meio mais cordial sem que deixa transparecer qualquer atitude de aspereza.

Diante desse divergência de comportamentos entre ambos é que um colega resolveu fazer uma música em homenagem ao senhor Alberto “Mititi” por ser um inspetor severo, entretanto, em certos momentos, hilário. O senhor Alberto tinha com o hábito dizer para qualquer aluno, quando este cometia alguma indisciplina. – Vá pra o castigo e deixa de gracinha.
Baseado nessa sua atitude é que foi feita a seguinte música:

Oh, seu Mititi não leve a mal,
eu fiz um pão pra brincar no carnaval,
o pão foi feito lá na cozinha,
vá pro castigo e deixe logo de gracinha.

O senhor Alberto gostava de ouvir o cantor Carlos Alberto, cantor romântico que fazia grande sucesso com as músicas Lado a lado e Sabe Deus, sucessos daquele ano (1964. Senhor Alberto colecionava discos de boleros como Bievenido Grande e Nat King Cole, seus preferidos.

O senhor Antonio Sampaio, natural do Piauí/PI, que foi diretor da Escola Técnica Darcy Vargas tinha duas lindas filhas que se chamavam Heros Maria Sampaio e Aninha, ambas lindas e paqueradas pelos internos. A casa do senhor Sampaio ficava a uns cem metros, logo após à ponte do lado direito,  local  que eu frequentei por várias vezes,  em face de ser um dos escolhidos para fazer a limpeza na casa do diretor Sampaio. – Que sorte essa minha, conviver com duas lindas meninas, sempre com respeito total. A Heros Maria era paquera do colega Meireles, também interno. 

Dos moradores da Ilha tinha a família “Quirino” e um dos seus membros o Rafael que estudou na escola, além de outro de nome Amaral, que também em tempos idos teve sua presença na escola e que deve ter sido a primeira família de Quilombola, hoje com essa denominação oficial, posto que naquela época não se usava essa designação.

Dos alunos internados lembro de Sergipe, apelido concedido em razão de ser natural do estado de Sergipe (um que ao pescar em alto mar teve um dos dedos do pé cortado por cação na famosa pesca de traineira). Tinham o Elpídio morenão natural do Maranhão, Sebastião  (alto e magro) conhecido por Tião que participava da banda do Maestro Camargo e tocava piston), no coreto; Irairan (maranhense), também era outro interno de porte físico acentuado e conhecido por ser bom de briga.

O senhor Lima, que circulava de um lado para outro entre os pavilhões I (dormitório e II (refeitório) também era um dos que morava na escola e se tratava de um homem bastante inteligente, onde a leitura era o suporte para o seu destaque, sobretudo por falar sobre qualquer cidade do mundo, apenas por intermédio das suas leituras incansáveis, mesmo tendo um lado perturbado mentalmente, como atribuíam a ele, todavia sem que lhes fossem retirados a qualidade de dialogar com clareza e sapiência.

O interno apelidado de “Burraldo”, sendo o  seu real nome  Juracy, natural do Maranhão e com estatura baixa, que não prosperou com o tempo, uma vez que em uma das minhas idas à São Luís/MA, tive o desprazer de vê-lo conduzindo uma carroça e um burro. Após esse contato não mais o vi. É uma pena que  esse colega de escola não soube tirar proveito dos ensinamentos da nossa escola e preferiu parar no tempo.

Wallace um jovem magro e alto era outro colega de comportamento discreto;  Janir (baixo e entroncado) tinha como paixão a corrida e era o melhor dentre todos os que faziam parte das corridas na praia; Como usavam a expressão “garotão” uma menção a quem tinha um caso com outro, o Janir era o garotão do Juracy, o “Burraldo”.

Daniel é um colega de feições finas de cor clara e magro e circunspecto; José Barreto sisudo e de bom diálogo de cor clara e magro que por sinal era o destaque das aulas da língua portuguesa do professor Sebastião Assis Vieira e por outro lado Natalício Lisboa que era muito bom na área de matemática e tinha a alcunha de Cientista, e era o melhor na disciplina de matemática ministrada pelo professor Horácio. Tinha o Roberto Barros, um jovem que tinha uma caligrafia de destaque, onde brincava com as letras e eu fui um dos que aprendera essa arte, entretanto com o tempo, perdi essa qualidade.

Na biblioteca tínhamos bons livros e eu gostava muito ler àqueles que falavam de contos e histórias sobre vários países, que fazia com que seguissem as viagens por intermédio das palavras e figuras que ilustravam toda a nossa mente e assim a cada livro lido, o seguinte denominava-se o prazer, seria melhor e por isso é que a leitura continuou a ser uma constante e eu um leitor contumaz, embora no hodierno eu já não seja tão leitor como antes e o que advém das escritas são reminiscências que levam a conduzir as palavras na mesma interação que

A cada mês era reservado o primeiro domingo de cada mês para visita dos familiares e era um dia que no começo foi triste para mim por não ter nenhum parente no Rio de Janeiro/RJ, considerando que os meus parentes residiam em São Luís do Maranhão e mesmo me sentindo só, o meu relacionamento com todos os colegas sempre foram de respeito, atenção e cordialidade e assim pude cativar a confiança de todos que quando da presença dos seus pais na escola, eu também me dividia em diversos para receber a atenção e o carinho por parte desses pais e mães que acabavam me adotando como se também fosse um dos membros do seio familiar e dessa forma pude em parte me sentir mais forte a cada primeiro domingo de cada mês, embora a ausência da minha família era perfeitamente entendida em decorrência da distância, o que seria natural.

A escola também proporcionava aos seus alunos a escolha dentre todos que tinham o melhor comportamento, o que nem sempre era o meu caso, uma vez que havia uma rigorosa disciplina no que tange à não conversação nas filas para o refeitório, dormitório e trabalho, em que havia um monitor responsável que observava tudo e sem cerimônia ou consideração, anotava tudo e quando chega às quintas-feiras que era o grande dia da sessão cinematográfica, um capítulo era transmitido a todos, desde que não tivessem relacionados nas anotações desses monitores, alunos que eram denominados de “ bagunceiros” por infringir na disciplinas, objeto de regime de comportamento. E era ai que eu me ferrava, porque eu conversava em todos os locais, fazendo com que eu ficasse fora dessas sessões de quintas-feiras, porque ficava em uma sala escura e sem poder me comunicar com ninguém, só saindo dessa sala após o término da sessão cinematográfica. A disciplina era bem rígida.

Por outro lado, soube tirar proveito dessa disciplina nos desfiles escolares que se realizaram fora da escola e um desses foi em Itacuruça/RJ. Em outro momento uma visita foi agendada no presídio da Ilha Grande, onde concentrava os bandidos mais perigosos naquela época, quais sejam: Mineirinho, Buda e Praga de Mãe. Lembro que um desses bandidos que andava com uma bíblia nas mãos tinha dentro dessa bíblia uma navalha, justamente porque a bíblia fora cortada por dentro deixando um espaço para que lá repousasse a navalha. Esse fato foi presenciado por mim, avisado por um colega de escola que não recordo o seu nome.


Os times da época eram o Estrela, Ipiranga, Náutico e o outro time eu não lembro.

Um desses atletas era o Jason, que corria muito e jogava pela ponta direito e quem era o seu marcador era eu que nem sempre conseguia marca-lo em face da sua rapidez.

A enfermaria era comanda pela irmã Madre Tereza (gordinha e de cor clara) que recepcionava  todos aqueles que adoeciam e muitos até simulavam qualquer enfermidade para ficar por lá, haja vista que a comida era diferenciada daquela servida aos alunos, assim como o café da manhã, que o pão era aquele que quando mais se comia, mais se queria. Tivemos a visita de uma madre superior que veio da França e todos ganharam uma medalha cunhada em ouro.
A minha eu dei para minha mãe.

O nosso setor de recursos humanos era de competência do senhor Lourival, que tinha como uma das suas funções entregar as cartas que eram endereçadas aos alunos, assim como encomendas e sobretudo o dinheiro enviado pelas família naqueles envelopes via Correios que ele avisava e ia registrando cada retirada, com respectivo controle rigoroso, sem que houvesse reclamação de nenhum aluno.

Tinhas dois alunos que se especializaram na profissão de barbeiro, quais sejam: Jiêvo (jovem moreno e de cabelo ruim, ao passo que o  Joaquim, claro e cabelos não tão bom. Entre os dois o melhor para cortar cabelo era o Jiêvo, que tinha a preferência de todos, mormente a minha.
O Jiêvo além dessa qualidade tinha uma imbatível, que aos sábados eram realizados o concurso de roupas mais e limpas e passadas e o Jiêvo  não tinham concorrentes e como prêmios uma pasta de nome “Colipe”, creme Flor de maça para os cabelos, sabonete lifebuoy.

O Jiêvo tinha como praxe passar a sua roupa que seria um macaquinho (uma espécie de macacão com pernas curtas) que ele engomava de uma forma que a roupa ficava em pé de tanta goma e seu sapato de tão engraxado brilhava e servia de espelho, dado ao capricho que esse colega tinha em seus afazeres.

Na parte da telegrafia tinha o Antonio Luiz, salvo engano, um rapaz baixo e claro, que é natural de São Luís/MA, meu conterrâneo.


Os barcos de propriedade da Fundação Abrigo Cristo Redentor tinham as seguintes denominações: Tintureiro, Condecar, Almirante e Getulinho, que eram os condutores para acesso de entrada e saída da Ilha da Marambaia. Tinha época que fica inviável a entra e saída de qualquer embarcação em consequência da agitação do mar que tinha como personagem principal “os  ventos do sudoeste”, que chegam a naufragar e outras que enchiam de água e metia medo em toda a tripulação.

As descrições dos colegas com certos detalhes são para facilitarem as suas identificações por algum desses alunos advindos posteriormente ao ano de 1966 para estudarem na Escola Estadual  Darcy Vargas,

Letra do hino que era muito cantado e fazia parte dos nossos momentos cívicos.

Nós aqui nesta escola
Estamos cumprindo um dever
Que nossa mãe pátria reclama
Para sabermos sempre a ela defender.

Juremos briosos companheiros
Neste céu de puro anil
Com armas na mão defenderemos
A integridade do Brasil.

Temos mostrado nesta escola
Grande interesse em servir a nação
Mas é preciso que o mundo saiba
Que o Brasil está em nossos corações.

Marchemos para a frente
Trabalhemos pela glória
Que um soldado valente arrebata a vitória.
E no dia glorioso
Que o soldado não esqueça
Aprendiz ao seu chefe obedeça.

Fortemente unidos nessa vontade
Em uma página de luz e liberdade.
A história pátria nós escrevamos
De baionetas muralhas construamos!
Hip-hurra!

Logo que transforme a música que está em vídeo (Mp4 para Mp3 mandarei o áudio."

Tintureiro

Postado por Nivaldo Lemos




















Texto de Pedro C. Fernandez


Era um meio-dia de sol em Mangaratiba, naquele mês de março de 1966. Estava no cais e vi chegar o “Tintureiro”. Aquela cena sempre despertava em mim a vontade de estudar na Marambaia.

O barco atracou na ponte, nele havia a bandeira do Brasil na popa. Era fabricado em madeira, todo pintado na cor verde, sendo algumas partes mais escuras e outras mais claras. Seu comprimento era de 10 metros, tendo três metros e meio de largura. O porão no convés da proa, fechado com uma escotilha de madeira, era usado para armazenar o gelo e o peixe. No centro da embarcação, estava o motor, dentro de uma pequena casa de máquinas. O timão do leme era de cana-da-índia. Havia também dois pequenos mastros, que um dia içaram, com auxílio de polainas, as redes cheias de corvinas.

Era uma traineira pequena com nome de tubarão grande.

Corri pro Hotel Rio Branco:

- Tia, chegou o barco do colégio. Quero ir pra lá estudar.

- Primeiro tenho que falar com sua mãe. Se ela deixar ir...

Minha tia ligou para o Rio de Janeiro e, depois de uma longa conversação, teve o tão desejado consentimento. Já havia arrumado o enxoval e só faltava fazer a mala. A tia foi buscar uma que era do meu pai, de nylon americano, na cor azul-marinho, e assim pude colocar tudo dentro dela. Já tinha também o uniforme do colégio preparado, porque, na realidade, a viagem já deveria ter sido realizada na semana anterior, mas, por motivos familiares, fora postergada.

Até parece que eu ficava sempre ali no cais somente esperando a chegada do Tintureiro para me levar. O barco partia sempre às duas da tarde. Eu já estava pronto, arrumado, almoçado e com a mala feita. Saí com minha tia e o Manduca, que me levava a bagagem até a ponte. No caminho, fomos surpreendidos com a notícia de que o barco não iria partir como programado.


- Por que não sairá?

- O Chaim confiscou a embarcação para ir a Ibicuí para reprimir contrabando. O delegado era conhecido por ser um repressor rigoroso. Não deixava as mulheres irem de biquíni à praia e não permitia que os homens andassem sem camisa nas ruas de Mangaratiba.

- E, agora, o barco vai sair a que horas?

- Ninguém sabe, depende do Chaim.

Voltamos para o hotel dos meus tios, onde eu estava morando. Fiquei torcendo para que a embarcação regressasse para eu poder finalmente partir para a escola. A cada instante corria até a ponte para ver se o Tintureiro havia voltado.

Um barco na tempestade.

Minha impaciência era grande e a do clima também. Aos poucos, o tempo foi mudando e a tarde foi ficando da cor de chumbo...

Eu sonhava estar no colégio, uma ex-escola de pescadores, que para mim era como entrar num colégio militar. A tarde foi chegando até que o Tintureiro foi aparecendo no horizonte da Baía de Mangaratiba. O delegado Chaim desceu do barco com um carregamento de cigarros contrabandeado. Desceram pela ponte e levaram tudo para a delegacia. Já era quase cinco da tarde, o tempo estava nublado e o vento soprava de mar afora. Havia pouco tempo de luz, e era necessário zarpar de imediato.

Agora, sim, o Manduca deixou minha mala no barco e minha tia ficou chorando na minha despedida. Subiram alguns nativos, e o Tintureiro soltou os cabos, iniciando nossa travessia de Mangaratiba para a Marambaia. Quando começamos a sair da baía, a traineira começou a balançar muito, e o mar ficou mais bravio. As ondas que batiam na proa faziam espuma que respingava nos nossos rostos. O funcionário da ilha, que era também dono do barco, tinha meio corpo dentro da sala de máquinas, de onde dirigia a embarcação, escorando a direção a sudoeste. Fomos muito castigados entre as ilhas de Guaíba e Guaibinha.

A minha mala estava na coberta, já deitada, balançava de bombordo para estibordo. Dava medo estar ali, pois nunca havia estado em alto-mar, principalmente em uma embarcação pequena e de noite. O vento era cada vez mais forte, e os passageiros tinham que se segurar por causa do temporal. Minha preocupação principal era que minha bagagem caísse na água. Se isso viesse a acontecer, ficaria perdida, pois a noite encobriu tudo, e já estávamos muito afastados da costa.

O barco era pequenininho e, com passageiros, ficava tão pesado que o motor passava da primeira para a segunda marcha, fazendo força para atravessar as ondas do mar. O dono do barco guiava com uma mão o leme e com a perna dirigia o motor. Num dado momento, com muito esforço, tratei de trazer a mala para a sala que estava por baixo da coberta, mas o dono não autorizou que ela entrasse.

O barco balançava, mesmo assim subi na parte de cima da cabine que cobria o motor, tratando de me agarrar à chaminé, coberta de corda e amianto, uma medida de segurança para ninguém se queimar. Mesmo com a proteção, ainda assim queimava, não podendo me equilibrar pelo movimento violento do mar. 


Estava atordoado com o mar revolto. A força da água era tanta que salpicava e inundava o fundo do barco. 
Minha preocupação era sair logo daquele temporal e chegar à ilha. A chuva e o vento não paravam, as ondas subiam bem alto. A proa do Tintureiro batia forte no mar e seu balanço era tão grande que parecia um sino a repicar com força. A completa escuridão, entre a Ilha da Marambaia e a Ilha Grande, fez com que eu me esquecesse da mala. Não via luzes, e a ilha estava tão longe que eu não enxergava.


Noite, chuva, vento, água e as ondas seguiam entrando no barco. A oscilação era maior que 75 graus, e as ondas eram de cinco metros. A situação ficou tão preta, no real sentido da palavra, que o dono queria que eu descesse para perto do motor. Tive que acatar a ordem e desci. Ali dentro fazia um ruído e calor infernais. Lá fora o temporal castigava, e a situação estava muito difícil.

Se alguém caísse na água, já era... A permanência ali era complicada em qualquer lugar. Dentro fazia um ruído e calor infernais; lá fora o temporal não dava trégua. Depois de algum tempo, voltei pra coberta na busca da minha mala. Minha preocupação era sair do temporal, e o meu medo era grande. Sabia que, se o barco virasse, todos morreriam afogados ou virariam jantar de tubarão.

Todo molhado pelo mar e pela chuva, cheguei a pensar que não íamos chegar e que o Tintureiro se perderia na imensidão do mar e da noite. Senti que era o meu fim e assim comecei a rezar vários pais-nossos e ave-marias, e a garrafa de cachaça rolava de mão em mão entre os passageiros para dar calor e coragem. Não me lembro se chorei, mas é provável...

Pouco iluminado no meio do oceano, o nosso barco buscava a costa da Marambaia pra se salvar. No horizonte escuro, quando a proa subia sobre as ondas, começou-se a enxergar, lá longe, na costa da ilha, as primeiras luzes que surgiam de cor amarela e, espargidas entre elas, viam-se as casas dos moradores e as luzes do colégio. Quando a proa descia e as ondas subiam, perdia-se de vista nosso destino. A estibordo, um passageiro, morador da ilha, movia com força a eclusa de ferro para cima e para baixo, no intuito de diminuir a água que já subia do porão e inundava cada vez mais a sala de máquinas.

Enfim, o cais do paraíso.

A escuridão imensa da noite se misturava com a do mar. O temporal começou a diminuir, e as ondas aos poucos ficaram menores. O vento começou a bater mais leve. Lá longe, começamos a enxergar as primeiras e poucas luzes da ponte que nos guiavam no meio da noite avançada e chuvosa. Minha mala perdida tinha caído na água que inundava o barco. Fiquei preocupado, mas estava aliviado de estar chegando seguro em terra.


O movimento era grande. Tiraram pneus do porão para escorar o encontro da embarcação contra a ponte. Logo que passamos pelo Zumbi, fomos chegando bem devagar. De pronto, saltou do barco um marinheiro que amarrou o cabo de proa no mourão do cais. Nos foi jogado o cabo da popa que, com o auxílio da proteção dos pneus, pudemos amarrar com dificuldade à outra ponta, pois o mar ainda seguia agitado.

Graças a Deus, finalmente, chegamos. Quando desci na ponte, sentia o vaivém do Tintureiro no meu corpo. Parecia que ainda estava a bordo. A maré alta batia perto do guindaste e, no meio da noite, segui em direção à área de embarque e desembarque de cargas, perto da Cibrazem, empresa que fabricava o gelo para os barcos de pesca. Ao contornar a praia, vi que a plantação de coqueiros, que servia de anteparo do ambiente escolar, mexia de um lado para outro, movida pelos fortes ventos.


Sigo em direção das luzes, onde vejo solene, silenciosa, noturna e serena a Escola Darcy Vargas, hoje, base dos fuzileiros navais, que a partir dali passou a ser meu lar e escola por quatro anos.

Tinha onze anos e dormi com medo, pensando que aquela noite não terminaria jamais.

 Buenos Aires, 11/11/11 .


Inventário da saudade: 45 anos de amizade

Postado por Nivaldo Lemos

O texto a seguir foi escrito por nosso amigo e "pingófilo" Pompílio Marinho (foto), após o último encontro de ex-alunos da Marambaia, realizado na casa do Prof. Adaury, em Sepetiba, e resume com precisão e emoção o que essa amizade, construída há mais de 40 anos, ainda representa para cada um de nós. Tomei a liberdade de mudar o título, por acreditar que este expressa melhor o espírito do texto. Espero que ele concorde.
“Sucesso absoluto! Vitória inconteste a realização desse primeiro almoço dos ex-alunos...”
Assim comecei em 1969 a carta aberta que tentaria colocar na imprensa como press-release e que pretendia fosse um acontecimento que despertasse interesse jornalístico e, consequentemente, divulgasse aquela iniciativa que julgávamos ímpar. Não era. Não era ímpar nem despertou interesse jornalístico. Naquela época, o que mais tinha era encontro de ex... Ex-alunos disso, ex-alunos daquilo, ex-estudantes, ex-políticos, ex-padres, ex-quase tudo! Naquele ano, com o homem pisando na lua, com movimentos políticos e atos institucionais sendo baixados a toda hora, com igrejas, cortiços e porões sendo usados como bunkers, os “ex” organizavam-se em pequenos grupos que se reagrupavam e daí por diante só o que interessava era o “movimento”.
Encontramo-nos, quase que por acaso, no Centro do Rio e ali começamos nosso esforço para manter vivo aquele espírito de corpo que pouco antes tínhamos na Marambaia. Catando-nos uns aos outros, com parcas informações e menos recursos, conseguimos finalmente realizar o que chamamos de “primeiro almoço de ex-alunos da Marambaia”.
Foi numa pensão de sobrado ali próximo ao Mercado das Flores. Uma terrina de sopa parecida com aquelas da dona Virgínia, outra de feijão e aquela travessona de alumínio, abarrotada de arroz... Só faltava a rapa de arroz conseguida com um pouco de “peixada” ou algum suborno. O Zarnof, que trabalhava na Brastel – esquina de Buenos Aires com Uruguaiana – foi quem organizou tudo junto ao português da pensão.
Um incrível exército de Brancaleone - Comparecemos pouco mais de meia dúzia, se tanto. Lembro-me bem da presença de Gaúcho, Janir (Baeh), Sérgio Dames, Arraia, Chipa – que chegou atrasado, como sempre –, eu e... Quem mais? Tinha um outro cara que trabalhava na Marinha, ali na 1° de Março. Talvez fosse o Massinha, não sei...
Era uma mesa de 12 lugares com mais um na cabeceira que o Zarnof e o Gaúcho disputaram por todo o tempo. O Arraia, que trabalhava na Piril (gráfica), queria de todo jeito imprimir uns convites já pro próximo encontro... E mandaríamos pra quem? Com que recursos (endereços, dinheiro pro correio)? Votamos então a impressão de uns cartões de participação com votos de boas festas. O Sérgio Dames ficou encarregado de criar o layout. Dames trabalhava na Visconde de Inhaúma e eu, na Ouvidor. Depois desse almoço jamais nos encontramos de novo. Pelo menos não todos os presentes ali nem em número tão significativo.
Baeh foi pra Escola Técnica Nacional, Gaúcho foi pro PQD (Corpo de Paraquedistas), Dames sumiu, Arraia virou gerente (anos depois) e, assim, nossos encontros passaram a ser esporádicos. Mais frequente só eu, Chipa, Gaúcho, Zarnof... Mas sempre em dupla ou trinca, nunca mais...
Agora, 40 anos depois, sem aqueles parceiros do primeiro encontro, junto-me a esse grupo para mais um almoço de ex-alunos. É muita emoção! Trocam-se os parceiros, mudam-se as ferramentas de contato – que hoje praticamente é só internet –, mas continua igual. Igual há 40 anos ou há um ano atrás, quando fui pela primeira vez ao Encontro de Itaboraí.
Amigos são tesouros - Obrigado! Obrigado, Piauí, por ter publicado no Overmundo o que proporcionou esse nosso reencontro. Obrigado, Schunck, por seu esforço na organização desses encontros. Obrigado, Prof. Adaury, pela acolhida em sua casa desses seus velhos alunos neste ano de 2009 e por ter participado em 2008 do reencontro em Itaboraí. Obrigado aos que estiveram presentes:
P. P. Portes, Ademir, David, Schunck, Nivaldo (Piauí), Ivone, Nilce, C. Alberto (Negão), Ana, Cyrilo, Paulo Jorge, Jonas, Dulcinéia – esposa do nosso saudoso professor Sergio Vilar Gómez. Com exceção de Ademir, Ana, Davi, Ivone, Jonas, Paulo Jorge e Dulcinéia, que não estiveram lá, acrescentem-se para Itaboraí as presenças de Hélio Dias (Parafuso), Jorge da Silva (Calango), Cida Borges, Roberto Barros, Eduardo (Gagary), Francisco de Assis (d’Big).
Não esqueçamos também dos familiares que acompanharam todos e dos que, não tendo acompanhado, de alguma forma contribuíram para o brilhantismo desses encontros.
Amigos, irmãos, muito mais do que agradecer, quero louvar a felicidade dessas nossas vidas! Separadas de corpos, mas sempre unidas pelos laços que lá atrás se formaram e que não há tempo nem distância que os desfaçam. Encerrando, peço licença à Bia, filha do PP, para reproduzir uma parte do seu texto que nos foi enviado logo após o encontro na casa do Prof. Adaury, que tem grande participação na formação desse pensamento:
"Nesse encontro pude notar muita alegria, emoção, felicidade presentes nos olhos de cada um de vocês. E foi muito gratificante pra mim saber que a amizade, quando cultivada, faz brotar somente esses sentimentos tão positivos.
Certa vez, um escritor muito sábio disse: 'Quem achou um amigo, achou um tesouro.' Todos vocês são uma jóia rara na vida uns dos outros; então, continuem assim cultivando essa amizade tão bonita e duradoura.. Vocês representam com nobreza a palavra AMIZADE!”

Uma amizade sem fronteiras

Postado por Nivaldo Lemos

Texto escrito por Jorge da Silva (foto), o Jorge Calango – hoje empresário nos EUA -, sobre o que representou para ele a experiência no Colégio Estadual Darcy Vargas, na Ilha da Marambaia. E, especialmente, o que significaram as amizades ali construídas e mantidas até hoje, quase meio século depois.

A experiência vivida por nós, ex-alunos da Marambaia, foi muito interessante, a começar pela forma com que nos conhecemos e que ficou gravada para sempre em cada um de nós. Tanto que, após minha saída da Escola, nunca perdi o contato com alguns amigos, como o Cyrilo e o Océlio – este, inclusive, durante o tempo de serviço militar viveu conosco como verdadeiro irmão em nossa casa, o mesmo acontecendo depois com o Cyrilão, que também acolhemos como um filho mais novo. Aliás, minha mãe sempre considerou nossos amigos da Marambaia como filhos. Tanto que, um dia, eu já vivendo nos EUA, recebi a triste notícia do falecimento dela e – por não poder comparecer à cerimônia fúnebre por morar em outro país - fui representado pelo meu irmão, compadre e amigo Cyrilo. Tudo isso, até hoje, me enche de orgulho, pois demonstra que a afinidade entre nós com o tempo ultrapassou os limites de uma simples amizade e transformou-se – posso dizer, sem medo de errar – em relação de quase parentesco.

Essa amizade em hoje guardo também por cada um dos tantos outros amigos que fiz naqueles longínquos anos 60, como o querido Gagarin, Zé Carlos Cassia, Neguinho, Luiz Piranha, Océlio Orange (irmão do Océlio), Ozanete (irmã do Océlio) e outros. Todas essas pessoas marcaram nossas vidas e, mais tarde, a vida de nossos filhos e esposas, como o caso da Edna, esposa do Cyrilo, que hoje é minha comadre; a Ângela, esposa do Gagarin e grande amiga, assim como os filhos dele, O Dudu e o Ângelo, igualmente grandes amigos e garotos que valem ouro – a todos eles amo como meus verdadeiros parentes.

Primeiro encontro – A estes amigos, mais tarde juntaram-se o Arnaldo Schunk e o Carlinhos (Negão) e, juntos, sonhamos o primeiro encontro de ex-alunos na Cidade dos Meninos, localizada em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Para tanto, articulamos e reunimos os contatos que cada um tinha na época e realizamos o primeiro encontro de ex-alunos da Marambaia. O local foi a casa do ex-diretor administrativo da escola, Manuel Bastos, na Cidade dos Meninos. Estavam presentes Tião Rosa, Lauro, Hélio Fraga, Jorge Rodrigues, Cyrilão, Roberto Barros, Prof. Adaury (ex-diretor pedagógico da escola, que sempre esteve à frente de seus alunos e, diga-se de passagem, jamais faltou a nenhum dos encontros que se sucederam àquele), Nagibe - grande Nagibe! -, Luiz Fernando Ceoto (sobrinho do querido Prof. Leonel), Gagary, Walmir e outros amigos de Paraty que no momento me fogem à lembrança. Neste encontro ainda contamos com a presença da viúva do Serginho e do querido e Theodoro, filho de D. Anita, que morava na Ilha Grande e era irmão do falecido Kall Albert Knosell Chagas. No nosso segundo encontro, também ele já estaria ausente, vitimado – como o irmão Carlinhos – pela violência que não poupou sequer o paraíso em que moravama, a Ilha Grande. Ambos eram policiais. Encerramos este primeiro encontro bastante emocionados e unidos numa oração de agradecimento a Deus pela oportunidade que nos proporcionou de realizá-lo com sucesso.

Outros encontros – O segundo encontro foi realizado na casa do Prof. Leonel já sem a presença de alguns ex-alunos que faleceram, como já dissemos. Mas o terceiro foi o mais engraçado e melhor de todos, pois foi feito na casa do nosso querido Gagary, com a presença do PP, do Antoni, irmão do Chico Pimenta e de toda a galera. Imaginem um encontro na casa do Gagary, com toda aquela cachaça... Foi uma maravilha, fiquei em Paraty dois dias. E o meu amigo Pintinho levou dois dias de Paraty a Angra, cidades que ficam a poucos quilômetros uma da outra. O Ivan esteve presente neste e não me deixa mentir. Foi um senhor encontro. Depois disso, realizamos um passeio à Marambaia (somente para os Lords – como nos chamavam os alunos remanescentes da antiga escola de pesca, para nos diferenciar deles), que também foi muito bom, mas cujos detalhes me fogem à mente. Lembro que foram eu, o Schunk, o Carlinhos, o Hélio Dias, o Cyrilo... Caso haja esquecido alguém, queiram acrescentar. Finalmente, o penúltimo – antes do realizado na casa do Prof. Adaury, em Sepetiba – foi no sítio do irmão do Nivaldo, em Itaboraí, cujas fotos podem ser vistas aqui. Abraços a todos e não vamos deixar a peteca cair. Vamos marcar o próximo!

Dores e alegrias de uma escola à beira-mar

Postado por Nivaldo Lemos


Marx disse que há dias que valem por séculos na história dos povos, referindo-se à Comuna de Paris. O dia 21 de maio de 1965 – quando desembarcamos na Escola Técnica Darcy Vargas (1), eu e meu irmão Célio – foi um desses dias fundamentais na nossa história pessoal. Era uma sexta-feira e vínhamos de longa viagem de Kombi até Santa Cruz, de trem de madeira (o famoso “macaquinho”) até Mangaratiba e de barco até a Ilha da Marambaia, onde ficava o colégio interno, um percurso de mais de cinco horas.

Ao desembarcar na ilha, seguimos juntos para a escola arrastando malas e saudades. O cheiro do salitre, as casas simples à beira-mar e o marulhar das ondas lambendo a longa faixa de areia me deram uma enorme saudade de casa. A natureza da ilha era deslumbrante e um cenário perfeito para uma escola de sonhos: à frente do pátio onde hasteávamos a bandeira, um mar azul salpicado de embarcações; nos fundos, a frondosa mata atlântica. À esquerda da escola, um tapete avermelhado de pétalas desenhado pelos flamboyans e uma pequena ponte sobre um rio delimitavam a área de circulação externa, chamada de "perímetro". Depois da ponte, portanto fora do perímetro permitido, havia uma antiga senzala usada como quitanda por Dona Soraya e aonde muitas vezes acorríamos sorrateiros para comprar doces e picolés. À direita, erguiam-se um pequeno bosque de eucaliptos e o pico da Marambaia que chamávamos de Morro da Velha por causa da freqüente névoa que o encobria como um véu branco de beata e que, vindo do Atlântico, se agasalhava durante dias no colo da floresta, como se descansando da longa viagem.

Chegamos cheios de dúvidas e medo de não corresponder às expectativas. Eu sabia que estava ali mais por circunstância do destino (escola experimental, internato, numa ilha e poucos candidatos) que por mérito. Cursara precariamente o primário até prestar o Exame de Admissão que me levara até ali – só Deus e talvez meu pai sabiam como. De qualquer modo, ali estávamos – eu e meu irmão.

Uma noite de cão.

A primeira noite foi a mais difícil. O alojamento era um enorme pavilhão com fileiras de camas e um conjunto de banheiros no fim. Quando soou o toque de silêncio e as luzes se apagaram, rezei a ave-maria em silêncio e, extenuado, dormi. De madrugada acordei apavorado: havia urinado na cama e não sabia o que fazer. Sequei o chão com o próprio lençol e o substituí por um novo, antes que o dia amanhecesse e me descobrissem. Para meu desespero, aquilo se repetiu várias noites. A roupa de cama era trocada somente aos sábados. E quando ao fim da primeira semana levei à lavanderia a pequena montanha de lençóis, o chefe da lavanderia olhou nos meus olhos e viu o meu desespero. Foram os segundos mais longos de minha vida até ele me sorrir e pegar a roupa. Ninguém nunca soube o meu segredo. Em poucas semanas me adaptei à escola e o problema sumiu. Sobrevivi incólume, graças à generosa cumplicidade daquele homem de quem hoje sequer lembro o nome.

Castigos e desejos: pedagogia da submissão.

O colégio era civil, mas logo descobri que a disciplina era militar. Cada aluno recebia um número de identificação que era posto no armário, uniforme e roupas de cama. O controle incluía o uso de apito ou corneta para reunir os alunos em pelotões. Para tudo – comer, ir às aulas, à praia, dormir – soava um toque de corneta ou apito e de pronto ficávamos em posição de sentido, imóveis, até o segundo toque quando formávamos pelotões. Por vezes o monitor aguardava longos minutos até o segundo toque, observando se flagrava algum movimento. Quando isso acontecia, ele anotava o nome do “infrator” que à noite era posto de castigo em pé no pátio durante horas, imóvel e em silêncio, até a hora de dormir. Um castigo que recebi amiúde no primeiro ano. Era talvez uma forma de subjugar fisicamente aquele bando de adolescentes, autênticas máquinas de energia e vitalidade. Hoje, quando penso naquelas lições de totalitarismo, não posso evitar uma associação – mesmo que involuntária – com a ditadura militar que subjugava o país à época.

A vigilância era orwelliana: inspetores e monitores acompanhavam cada passo dos alunos no pátio, sala de aula, dormitório, igreja – até no banheiro havia sempre um par de olhos atentos. O mundo que nos chegava nas ondas do rádio refletia anseios libertários: Beatles, hippies, pílula, amor livre. Ainda não havia AIDS para intimidar a sexualidade, éramos mais de mil jovens – entre 12 e 20 anos – enclausurados numa ilha cuja única ligação com o mundo exterior – além do radinho de pilha e as visitas da família – era uma televisão PB (não havia TV em cores), onde assistíamos ao Telecatch, Programa Flavio Cavalcanti, Hebe Camargo e filmes e notícias que a ditadura permitia. A repressão à sexualidade e a eventuais transgressões incluía os sermões do Padre Geraldo na missa dominical, que, no mês de Maria, maio, passava a ser diária. Apesar disso, nos quatro anos em que lá estudei, um inspetor e dois alunos foram expulsos por homossexualismo. Num colégio interno só de rapazes, era natural que se formassem amizades, mas quando dois amigos andavam muito juntos, o mais novo era chamado de “garotão” (“Fulano é garotão de Beltrano”), numa insinuação maldosa de que eram mais que amigos, o que nem sempre era verdade.

Pontos de fuga: o padre e a pátria.

O Padre Geraldo era um alemão que esculpia raízes da praia e pintava quadros belíssimos, mas bebia muito vinho e o tema recorrente dos seus sermões era a possibilidade de algum aluno namorar uma moça da ilha – o que deveria ser evitado sob o risco da danação eterna. O Padre Geraldo também celebrava missas nas ilhas da região – Ilha Grande, Jaguanum, Águas Lindas – à época ainda inexploradas turisticamente. Para fugir da rígida disciplina do colégio, eu e Célio nos tornamos coroinhas e passamos a acompanhar o padre nas missas realizadas nas ilhas. Como eu sabia que ele era chegado a um vinho (certa vez de tão bêbado celebrou um casamento em cinco minutos, repetido sobriamente depois a pedido dos noivos), na hora da consagração colocava mais água do que vinho no cálice. O padre ficava irritadíssimo e chegava a se servir ele próprio, subvertendo os cânones cerimoniais. Depois, dava-me uma bronca e acabava achando graça. O resto do dia a gente passava à toa pelas praias desertas, retornando só à tardinha ao colégio.

A disciplina tornava-se mais forte ao se aproximar a semana da pátria. O desfile em Mangaratiba era outra oportunidade da sairmos da ilha. A preparação incluía marchas diárias, horas a fio sob o sol, com nosso uniforme principal (chapéu de marinheiro, gandola e calça de brim azul e sapatos pretos de plástico emborrachado que no calor exalavam um chulé insuportável). Todos cantavam hinos militares e ensaiavam coreografias (estrela, âncora e evoluções). A banda de música tocava o Cisne Branco e hinos marciais cujos nomes não me recordo, embora lembre de um cuja letra reproduzo no fim desta matéria para que vocês tenham uma idéia. Participávamos dos desfiles com um ingênuo e sincero patriotismo, muitas vezes regado a lágrimas. A Escola Estadual Darcy Vargas era quase hors-concours, tamanho o sucesso que fazia. Lembro que as pessoas subiam nas sacadas das casas e no coreto da pracinha para ver melhor nossas evoluções e aplaudiam pra valer. Houve um desfile em que deixei um radinho de pilha Mitsubishi que ganhara de minha mãe com um inspetor, para que ele cuidasse enquanto eu desfilava. Para minha tristeza, quando após o desfile o procurei para reaver meu rádio, ele me informou que havia sido roubado. Nunca mais vi meu Mitsubishi. E os desfiles nunca mais foram os mesmos.

Futebol, álgebra e poesia: pedagogia da imaginação.

Lecionar numa ilha distante para alunos em sua maioria carentes – à época o termo não existia; a condição, sim – exigia dos professores um compromisso vocacional hoje cada vez menos comum. Só uma visão sacerdotal explica porque jovens educadores submetiam-se semanalmente à rotina de uma desconfortável viagem num pequeno barco de pesca, o Tintureiro, que – quando em mar bravio – era obrigado a permanecer horas ao largo, até aportar. Verdadeiros heróis, embora somente alguns permaneçam na minha memória até hoje: Jackson (de Português), Otacílio (de Aritmética), Sérgio (de Educação Física), Ademir (de Inglês) e Jader (de Álgebra). Destes, lembro com especial carinho dos três últimos.

O professor Sérgio, pelas aulas de educação física na praia ou no campo de futebol, que eram lições de liberdade e alegria. No primeiro ano, ele bolou um torneio de futebol que mobilizou a escola e colaborou muito para a integração dos alunos. Eram quatro times: Estrela (camisa azul), Náutico (vermelha), Esperança (verde) e Amarelinho (amarela), este último formado só com os “perebas”, que tinham pouca ou nenhuma intimidade com a bola – do qual fazíamos parte eu e meu irmão – e que por isso haviam sobrado. A torcida – incluindo quatro ou cinco meninas da ilha que estudavam em regime de externato – comparecia todo sábado e domingo para aplaudir ou vaiar nossas jogadas. No fim, o campeão foi mesmo o Estrela; e o vice, o Esperança. Mas o Amarelinho surpreendeu e ganhou do Náutico, ficando em terceiro. O que foi uma vitória para um time de enjeitados, e uma prova de que, no futebol como na vida, união e vontade às vezes podem valer mais do que a técnica.

Do professor de Inglês, Ademir, lembro especialmente pelo seu jeito heterodoxo de dar suas aulas. Invariavelmente as encerrava com uma piada – ou um debate livre e bem-humorado sobre temas tabus, como sexo e droga. Eram cinco ou dez minutos de muita alegria. Não foram raras as vezes que professores de outras turmas reclamaram do barulho de nossas risadas ao fim das aulas de inglês. Interpretavam o jeito alegre e jovial do professor como liberal demais – e, à época, até poderia ser –, mas suas aulas eram das mais concorridas. Ao fim e ao cabo, todos foram aprovados em Inglês e ele ainda garantiu lugar de destaque na minha memória. E na de muitos colegas, tenho certeza.

De todos, porém, o professor Jader foi sem dúvida o que mais me marcou. Pois, se não mudou minha relação com a Álgebra, me despertou para uma das mais importantes formas de compreensão da vida: a poesia. Foi numa festa cívica realizada no teatro da escola na qual alunos e professores interpretaram, cantaram ou declamaram algo. Após várias apresentações insossas que arrancaram raros aplausos ou mesmo indiferença, ele subiu ao palco. O auditório não estava nem aí quando começou com sua voz grave e uma expressão acompanhando o timbre da voz:

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.


Fez-se um grande silêncio. O professor Jader desceu do palco e caminhou lentamente por entre os alunos hipnotizados com sua interpretação, entre os quais eu. E continuou por quase meia hora, enriquecendo o Navio Negreiro, de Castro Alves com todas as pausas e inflexões dramáticas que o poema merece. E encerrou, suado e ofegante:

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!


Foi uma apoteose: alunos, professores e funcionários aplaudiram por 10 minutos ou mais. Naquele breve instante de eternidade descobri aos prantos o que era a poesia. E virei poeta.

Dia de visita: alegria e frustração.

Ao longo do ano, nosso único contato com a família ocorria no último domingo de cada mês, o dia de visitas. A expectativa era grande e, tão logo o apito do barco soava no horizonte anunciando as visitas, muitos acorriam ao cais para receber pais, mães, irmãos, parentes e amigos. Além de matar a saudade, a visita significava também presentes: caixas de chocolate e biscoito, frutas, doces e até radinhos de pilha para acompanharmos o futebol e ouvirmos músicas da Jovem Guarda. Se na escola as regras comuns e o uniforme padronizavam e escamoteavam diferenças sociais, o dia de visitas dizia muito da condição social de cada um: o tipo de roupa, o jeito de falar e a quantidade e qualidade dos presentes eram indicadores da condição social. Assim eu percebi que o Cabeleira, o Ademir, o Calvelli e outros tantos eram mais favorecidos socialmente que eu, meu irmão, o Sarampo, o Tesourinha, o Assis...

Diferenças à parte, o dia de visitas era uma festa. Exceto, quando, por um motivo ou outro, os pais não podiam ir. Era horrível. Ficávamos no cais até o barco se afastar, como para nos certificar de que ninguém viera mesmo. E voltávamos quase humilhados pela felicidade dos que caminhavam ao nosso lado abraçados a pais e parentes. Um sentimento que aumentava ainda mais quando as famílias se reuniam em piqueniques improvisados sob as árvores ou no pátio e os preterido ficavam a sós, pelos cantos. A frustração diminuía ao fim do dia, quando as visitas se iam e alguns colegas dividiam conosco um pouco do que haviam recebido, numa afetuosa demonstração de amizade e solidariedade que nos ajudava a suportar o mês, até a próxima visita.

Uma pena que este paraíso onde colhi as dores e alegrias de ser o que sou foi retomado pela Marinha e hoje é objeto de disputa judicial entre militares e quilombolas remanescentes dos escravos do comendador Joaquim José de Souza Breves, maior importador de mão-de-obra africana do Brasil no século XIX, conforme noticiou o Jornal Nacional. Ao escrever essas reminiscências escolares, outras lembranças que eu imaginava sepultadas para sempre me assomaram à memória. Talvez um dia as escreva, talvez as enterre definitivamente nos desvãos da alma.

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Uma herança do Governo Vargas.

A Escola Técnica de Pesca Darcy Vargas foi erguida durante o Estado Novo como parte de um complexo industrial profissionalizante de pesca. A escola incluía fábricas de farinha de peixe, de gelo e de redes de pesca, além de um pequeno estaleiro para a construção e manutenção de barcos. Foram construídas ainda uma cooperativa, uma escola primária e residências com esgoto, água encanada e energia elétrica.

Em 1939, a escola passou a ser administrada pela Sociedade Civil do Abrigo do Cristo Redentor – instituição de assistência social que desde o início dos anos 30 atuava no país e em 1943 foi transformada em Fundação. O projeto foi ampliado com a construção da Igreja Nossa Senhora das Dores, com clausura para religiosas, hospital, farmácia, lavanderia, além de padaria e projetos de horticultura e pecuária para abastecimento dos operários, técnicos e alunos. Em meados dos 50, o projeto – que chegou a concentrar quase toda a produção de pesca da baía de Sepetiba – entrou em decadência e a escola passou a representar um ônus.

Em 1965, a Fundação Abrigo Cristo Redentor firmou convênio com a Secretaria Estadual de Educação e reativou a escola com o nome de Escola Técnica Darcy Vargas (sem referência à pesca). Foram contratados dois gestores: Adaury Alheiros (diretor da parte educacional) e Manoel Bastos (parte disciplinar e administrativa). O novo currículo escolar incluiu, além das disciplinas tradicionais, Artes Industriais: encadernação de livros, motores a explosão, artes gráficas, artesanato, marcenaria e noções de marinharia. Curiosamente, a escola funcionou somente no período que eu e meu irmão lá permanecemos: de 1965 a 1970. Em 1971, foi novamente entregue à Marinha, que até hoje mantém ali o Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (Cadim), sob o comando dos Fuzileiros Navais.

A população da Ilha da Marambaia (Mbara-mbai em tupi-guarani, que significa cerco do mar) até hoje é composta por pescadores e remanescentes de escravos da família Breves, uma das mais poderosas linhagens da aristocracia cafeeira e escravocrata do Rio de Janeiro no século XIX, que lutam para permanecer na ilha. Pelas contas da Marinha - que defende a utilização exclusiva da ilha como área militar - lá moram 379 pessoas, ou 106 famílias, em 87 casas. Mas o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação para a Ilha da Marambaia, feito pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), indica a existência de pelo menos 645 moradores na ilha e mais 401 residentes no continente, num total de 1.046 pessoas, ou 281 famílias cadastradas, que teriam direito à titulação e ao uso coletivo da terra. A questão se arrasta até hoje na Justiça.

Letra do hino cujo título não lembro:

Nós aqui nesta escola
Estamos cumprindo um dever
Que nossa mãe pátria reclama
Para sabermos sempre a ela defender.
Juremos briosos companheiros
Neste céu de puro anil
Com armas na mão defenderemos
A integridade do Brasil.
Temos mostrado nesta escola
Grande interesse em servir a nação
Mas é preciso que o mundo saiba
Que o Brasil está em nossos corações.
Marchemos para a frente
Trabalhemos pela glória
Que um soldado valente arrebata a vitória.
E no dia glorioso
Que o soldado não esqueça
Aprendiz ao seu chefe obedeça.
Fortemente unidos nessa vontade
Em uma página de luz e liberdade.
A história pátria nós escrevamos
De baionetas muralhas construamos!
Hip-hurra!